PAPÉIS AVULSOS

BLOG DE AFORISMOS E “DESAFORISMOS” EM GERAL!

6/12/08

FIM DE EXPEDIENTE

O Sol já está se pondo no horizonte, e as sombras começam a tingir os prédios da cidade.
 
Na janela de um apartamento, Harmagedon contempla a paisagem antes de fechar o escritório e ir embora.
 
O corre-corre das pessoas e dos carros parecem não incomodá-lo. Pelo contrário. Esses ruídos urbanos são para Harmagedon como que os sons da vida. Ele não imagina uma vida sem aqueles barulhos característicos da urbe.
 
Harmagedon, ao mesmo tempo em que contempla a paisagem, pensa sobre a semana que passou e o quanto está aliviado dela ter terminado.
 
O fato de que dali dois dias tudo começaria novamente não o perturba. “48 horas é tempo suficiente para recobrar as energias”, pensa.
 
Nesse momento, Harmagedon lembra que ainda tem um serviçinho para concluir. “Ainda bem que me lembrei a tempo”, pondera, “Não gostaria de resolver isto depois de ter chegado em casa”.
 
Sacando seu telefone celular, Harmagedon seleciona um número de sua agenda no celular e clica no botão de discagem. Dois, três toques depois, uma voz grave atende:
 
— Veiga.
 
Harmagedon inicia o assunto pendente:
 
— Veiga, que bom te encontrar a tempo. Quase vou embora sem te ligar. É sobre aquele assunto inacabado.
 
Ouve-se um grunhido do outro lado da linha, por fim, Veiga responde:
 
— Aquilo já está acertado, Harmagedon. Não precisa mais se preocupar com isso.
 
— Acertado como, Veiga? Lembra que eu falei… — Harmagedon tenta argumentar, mas é interrompido:
 
— Sim, você falou que o melhor era esperar, mas o tempo urge e tive que tomar uma iniciativa.
 
— Vai me dizer que você… — balbuciou Harmagedon.
 
— Exato. Três tiros. Um na testa e dois no peito do desgraçado. — respondeu Veiga, impassível.
 
— Você sabe que hoje em dia isso dá mer… — retruca Harmagedon, inquieto.
 
— Dá merda pra quem tem que dar, o que não é o caso. Já mandei desovar o corpo em algum aterro e tá tudo certo. — diz Veiga.
 
— E sua mulher? — indaga Harmagedon.
 
— Aquela puta também já levou o dela. — diz Veiga, levemente irritado.
 
Harmagedon pensa o pior e prepara-se para saber do corpo da agora ex-mulher de Veiga. Antes disso, o homem esclarece.
 
— Pensa que passei chumbo na vadia, Harmagedon? Qual! Você sabe que a puta iria viajar com a mãe esses dias, não? Então! Eu “plantei” drogas na bagagem das duas e deu o maior rebosteio no aeroporto. Quando ligaram pra cá, eu já estava com a papelada do divórcio na mão e despachei a biscate. Agora ela tá lá levando dedada das presidiárias! — conta Veiga, agora com ar triunfal.
 
— Devo concluir então que o caso está encerrado? — pergunta Harmagedon.
 
— Exato. Fim de papo. Aquela puta que vá botar chifre na rameira que a pariu. — responde Veiga. — Quanto ao pagamento, já depositei na sua conta. Muito bom trabalho o seu. Sem você, eu estaria até agora levando chifre daquela vadia.
 
— Eu que agradeço. Fico feliz que tudo tenha se resolvido para você. — diz Harmagedon.
 
— Pode deixar que eu irei fazer ótimas recomendações sobre sua agência aos meus amigos e clientes. — continua Veiga.
 
— Muito agradecido, Veiga. Sabe que se precisar, pode contar comigo. — responde Harmagedon.
 
— Precisarei sim, já arrumei um brotinho de 19 anos pra substituir a anterior. Sabe como é… — diz Veiga, marotamente.
 
— Claro, claro. Não perde tempo, hein, Veiga. Tá certo você. — responde Harmagedon.
 
— Até mais, Harmagedon. Sucesso para você! — despede-se Veiga.
 
— Para você também, Veiga! Tudo de bom. — despede-se Harmagedon, desligando o celular e devolvendo-o ao suporte em seu cinto.
 
Harmagedon contempla o cenário agora escuro e salpicado de luzes da cidade e fecha a janela, apaga as luzes e tranca a porta.
 
Agora sim o expediente havia terminado.
criado por André Marcon    14:52 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , ,

18/10/08

DUAS MULHERES

Tadeu conheceu Bianca no colégio. Pouco tempo depois, começaram a namorar.
 
No começo, tudo parecia bem. Casal jovem, bonito, cheio de vida e esperanças pro futuro. Ele, de porte atlético e aplicação nos estudos, gentil, educado e filho de boa família. Ela, delicada, porém, sem afetação, de personalidade forte e força de vontade a toda prova, filha caçula de uma família humilde, mas batalhadora.
 
Depois de alguns meses, veio a notícia: Bianca estava grávida de Tadeu.
 
A revelação causou uma tremenda mudança no comportamento de Tadeu. Antes calmo e seguro de si e possuindo um forte senso de justiça, de repente se tornou ao mesmo tempo temeroso, desesperado e violento.
 
Segurando Bianca pelos braços a ponto de machucá-la, ele falou com ódio:
 
— Você vai tirar essa criança!
 
Surpresa com tal atitude por parte do namorado, Bianca respondeu, pálida de susto:
 
— Você ficou louco, Tadeu? É o seu filho! O nosso filho! Como pode dizer essa barbaridade?
 
Mais irritado ainda, Tadeu retrucou:
 
— Não interessa! Filho tem que ser planejado! Tem hora certa pra ser feito. E o que aconteceu conosco foi acidente! Isso não é nosso filho, foi apenas um acidente!
 
Bianca ficou pasma com as palavras de Tadeu. Este continuou a falar:
 
— Eu sou jovem ainda! Tenho que estudar, me formar, começar uma carreira! Tenho objetivos a cumprir antes de pensar em filho e família! Pense em você também! Você está na mesma situação que eu! É jovem e tem muito que fazer! E com filho no colo, tudo isso se torna impossível! Por isso, trate de procurar um meio de se livrar desse acidente! Aproveite que ainda está nas primeiras semanas!
 
Bianca reconheceu que, em parte, Tadeu tinha razão. Um filho a essa altura seria muito inoportuno para quem ainda é jovem e tem sonhos a se realizar. Mas mesmo assim não justificava a idéia de abortar a criança.
 
Bianca relutou quanto pôde às investidas de Tadeu. Este, furioso, se limitou a dizer:
 
— Pois bem, se quer ter essa criança, que tenha! Mas eu aviso que, sendo assim, estou fora! Acabou nosso namoro! E nunca mais venha me procurar, pois não tenho mais nada a ver com isso! Adeus!
 
Dito isso, Tadeu foi embora, deixando Bianca sozinha com seu infortúnio.
 
Os meses se passaram e Bianca enfrentou uma gravidez cheia de complicações em sua maior parte devido ao trauma por que passou por ser rejeitada por aquele que considerava como o homem de sua vida e que também era o pai de seu filho e também devido à discriminação que sofria por parte de alguns familiares e aqueles que consideravam suas amigas e haviam a abandonado depois que souberam do ocorrido. Bianca deixara a escola e nunca mais soube de Tadeu que, segundo uma das poucas amigas que não tinham lhe virado a cara, também deixara a escola.
 
Enfim, depois de muita angústia, a criança nasceu. Apesar das dificuldades, era uma linda e saudável menina, sem qualquer traço das dores sofridas pela mãe durante sua gestação. Parecia que ela já havia nascido imune a todas as agruras da vida, pois se mostrava alheia ao vale de lágrimas à sua volta.
 
Bianca decidiu que a menina se chamaria Vitória, pois não foram poucas as vezes que ela pensou que sua angústia causaria mal ao bebê e o mataria. Isso senão ela mesma morresse de desgosto antes disso.
 
A serenidade e vitalidade de Vitória preencheram o imenso vazio que se tornara a vida de Bianca. Tendo recobrado o ânimo, ela decidiu batalhar um emprego e concluir os estudos. Ela estava decidida a dar tudo de si para que nada faltasse a sua querida filha.
 
Mas Bianca pensou melhor e decidiu que deveria procurar Tadeu e exigir-lhe pensão para a filha. Afinal, o emprego poderia demorar a surgir e ele também tinha responsabilidade sobre a criança. Bianca não poderia aceitar arcar sozinha com as conseqüências.
 
Por isso, Bianca procurou saber sobre o paradeiro de Tadeu e descobriu onde estudava. Após se informar sobre os horários da escola, Bianca foi até lá e surpreendeu Tadeu no portão do colégio. Bianca carregava Vitória no colo e foi logo interpelando Tadeu:
 
— Olha aqui o que você quis que eu jogasse fora como se fosse lixo. Olhe bem nos olhos dessa criança e repita o que me disse aquele dia, se tiver coragem. Cachorro, canalha!
 
Tadeu sentiu o chão fugir-lhe aos pés e a vista escurecer. Só não caiu de quatro porque um amigo que estava ao lado o amparou a tempo. Recobrando os sentidos, Tadeu olhou para a ex-namorada e a criança em seu colo e balbuciou:
 
     — Não pode ser…
 
Mas foi. Bianca passou o maior sermão da vida de Tadeu e todos os alunos que estavam passando por ali pararam e formaram uma roda para ouvir o que Bianca tinha a dizer. Todos ficaram horrorizados quando souberam o que Tadeu fizera a Bianca e tomaram partido da menina. Tadeu, acuado, só pôde ouvir quieto o sermão e os gritos de reprovação por parte da “platéia” ali presente.
 
O tumulto só acalmou quando Tadeu se comprometeu a assumir sua responsabilidade como pai da criança e prover-lhe o que fosse necessário para a criação da mesma. A platéia aplaudiu e assobiou em êxtase e a turba foi se dispersando. Quando Tadeu e Bianca ficaram a sós, Tadeu disse:
 
— Eu sinto muito por tudo o que causei a você. Vamos para casa. Quero mostrar aos meus pais a linda netinha que eles ganharam.
 
Bianca saiu dali vitoriosa. Apesar da raiva que sentia por Tadeu ter-lhe rejeitado, ela ainda o amava e agora tinha esperança de voltar a ficar com ele e, assim, formar uma família completa.
 
Chegando à casa de Tadeu, Bianca estranhou uma coisa: o local estava deserto. Tadeu, trancando a porta atrás de si e disse:
 
— Acho que meus pais ainda não chegaram. Vamos esperar na sala. Mas antes me deixe pegar minha filha no colo. Como ela é linda!
 
Bianca entregou a criança a Tadeu e este a tomou no colo com a mesma ternura que cativara Bianca no começo do namoro. O amor que Bianca sentia por Tadeu veio à tona e a fez pensar que tudo daria certo dali em diante.
 
Porém, a face de Tadeu mudou de expressão e agora revelava um olhar maligno. Enrijecendo os músculos do braço, Tadeu pegou a cabecinha com as duas mãos e, num rápido movimento, destroncou o pescoço da criança com se destronca um frango. Vitória soltou um soluço e morreu na hora. Tadeu joga o corpinho de Vitória no chão como se descarta um papel de bala. Bianca fica pálida e muda com a cena atroz que presencia.
 
Depois Bianca desaba no chão a olhar, muda, para o corpo inerte de sua querida filha. Nisso Tadeu diz, com toda calma do mundo:
 
— Você achou mesmo que eu simplesmente aceitaria tudo isso, ainda mais agora com o vestibular chegando e meus planos estão indo de vento em popa? Tudo o que menos preciso agora é de mulher e filho me enchendo o saco. Além do mais, arrumei uma garota muito melhor e mais condizente com meu status do que você.
 
Dito isso, uma sirene de viatura policial soou em frente a casa. Policiais bateram com violência à porta e Tadeu, novamente transformando sua expressão facial, transpareceu dor e angústia. Ao abrir a porta, gritou:
 
— Guardas, prendam essa mulher! Ela matou a própria filho alegando ser minha após querer me chantagear e arrancar dinheiro de minha família! Ela é uma criminosa! Olhem o corpo da criança estirado no chão! Vejam como essa mulher está completamente fora de si!
 
Bianca estava em estado letárgico e só tinha olhos para o corpinho morto da filha. Por isso não ofereceu resistência ao ser detida e presa em um presídio feminino após um rápido julgamento.
 
Alguns dias depois, à noite, na cela onde Bianca estava uma mão portando um revólver com silenciador surge entre as grades e um disparo certeiro mata Bianca em seu leito duro e frio.
 
No corredor do presídio, o autor do disparo caminha calmamente rumo à saída.
criado por André Marcon    20:26 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , , ,

20/9/08

A SORTE DE ELEAZAR

Em uma simpática casa do bairro classe-média da cidade, um casal está sentado à mesa do café.
 
O homem, de meia-idade, já vestido para o trabalho, se serve de uma xícara de café.
 
A mulher, 10 anos mais jovem, vestida com seu jogging, pronta para malhar o corpo, bebe um copo de suco de laranja.
 
O silêncio, que até então reinava na cozinha, é quebrado com o início do seguinte diálogo:
 
— Como estão os exercícios, Eleusina? — pergunta o marido.
 
— Às mil maravilhas, Eleazar. — responde a mulher, sem sair do estado absorto de até então.
 
— Que bom. — retornou o marido, igualmente absorto.
 
Depois de alguns segundos de silêncio, Eleusina pergunta ao marido:
 
— E o trabalho, como vai?
 
Eleazar responde impassível:
 
— O de sempre: subordinados incompetentes, gerentes mais incompetentes ainda pensando que gerenciam com eficiência seus subordinados incompetentes, chefes não menos incompetentes e indiferentes à própria incompetência e a incompetência alheia, clientes nervosos com a incompetência geral da firma… Enfim, mesma merda de todo dia.
 
Após responder, Eleazar sorveu mais um gole do café.
 
Em silêncio, cada um saboreou sua bebida. Depois, a mulher tornou a indagar:
 
— Por que não muda de emprego, Eleazar? Por que não busca algo de acordo com suas capacidades?
 
Eleazar responde:
 
— Pra que? Ganhei uma bolada de herança de uma tia que eu nem sabia que tinha e meu pai também me deixou uma boa grana que ele guardou no banco a vida toda, o que nos garante uma vida tranqüila, mas não livre do dever de ganhar o pão com o suor do meu rosto. Além do mais, apesar da tragédia que é a firma onde trabalho, sou muito bem pago.
 
— Por falar nisso, Eleazar, e aquele documento sobre de quem é o quê, que você disse estar preparando? — perguntou a mulher.
 
— Ah, sim. A papelada sobre a distribuição de bens, caso algo aconteça no futuro. Já deixei tudo pronto e decidi que, se algo acontecer a mim, uma única pessoa será a beneficiária e receberá tudo o que tenho em vida, incluindo a grande herança de minha desconhecida tia e as economias de meu pai, que não são poucas.
 
Após proferir essas palavras, Eleazar começa a se sentir mal. Uma dor terrível toma conta de suas entranhas, fazendo-o cair da cadeira e se estrebuchar no chão.
 
Indiferente àquilo, Eleusina diz:
 
— Na verdade eu já sabia disto. Vi os documentos que me tornam proprietária de todos os seus bens caso algo lhe aconteça e que você trouxe e deixou na escrivaninha. Apenas dissimulei a fim de confirmar esta informação. Por isso tratei de envenenar o seu café. Agora eu e meu personal trainer, com quem tenho um caso já há um ano, poderemos ter a vida que sempre sonhamos. Adeus, meu querido e morto provedor!
 
Por um instante, a dor dessa terrível revelação suplantou a dor causada pelo café envenenado. Num último instante de lucidez antes do fim, Eleazar juntou o resto de forças que tinha e disse, com voz fraca, porém audível:
 
— Eu também já sabia desse seu caso, querida. Por isso tratei de, no meu testamento, repassar todos os meus bens para a única pessoa merecedora de minha pequena fortuna: a dona do orfanato que agora passa por dificuldades financeiras. Aquele documento que você viu é falso. Meu advogado já tomou todas as medidas cabíveis para que você receba aquilo que você merece: Nada.
 
Eleazar morre.
 
Logo em seguida, Eleusina, transtornada com a novidade, entra em desespero por se ver sem nenhum tostão e ainda com o corpo inerte de Eleazar pesando sobre suas culpadas costas.
 
Sem solução à vista, Eleusina só pôde tomar uma decisão: misturar em seu suco de laranja um pouco do mesmo veneno com que assassinara o marido e sorver o líquido sem pestanejar.
 
Após beber a última gota do suco, Eleusina começa a passar mal e tomba sua cabeça na mesa, como quem pega no sono.
 
Um sono do qual Eleusina jamais irá acordar.
criado por André Marcon    13:36 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , ,
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