PAPÉIS AVULSOS

BLOG DE AFORISMOS E “DESAFORISMOS” EM GERAL!

29/11/08

NAS GALERIAS

Chuvas torrenciais desabam sobre a cidade.
 
Devido ao lixo acumulado pelas águas nas bocas de lobo, pontos de alagamento surgem por toda a cidade.
 
Onde a vazão da água tem curso livre, uma enxurrada segue freneticamente rumo às galerias de água e esgoto.
 
É nessa enxurrada que encontramos o menino Jovino tentando atravessar um fluxo de água. O objetivo dele é atravessar aquele fluxo para ir para casa.
 
Jovino estava na casa de um amigo da rua de baixo quando a chuva começou. Munido de um guarda-chuva que levara consigo para caso chovesse, quando ele saiu da casa do amigo, apenas garoava. Mas logo a garoa ganhou força e um vento impetuoso fez coro com as trovoadas e relâmpagos. Jovino apertava o passo, tentando manter o guarda-chuva equilibrado, quando topou com a enxurrada bloqueando a passagem. Jovino tenta passar no meio da água, mas o pior acontece.
 
Jovino escorrega no asfalto molhado e liso, o guarda-chuva voa longe ao sabor do vento e a força da água empurra Jovino para dentro do bueiro desprovido de grades. Nem houve tempo do menino reagir. Quando ele deu por si, já estava sendo levado pelas águas dentro das galerias.
 
Desesperado, o menino chorava e gritava nas escuras galerias subterrâneas. O mau cheiro característico começou a sufocá-lo, abafando o choro e os gritos. Jovino viveu momentos de terror como nunca antes. A tubulação, sempre descendente, fazia curvas e às vezes topava com bifurcações, que faziam o menino dar solavancos e raspar a pelo nos tubos de concreto. Dali a pouco, Jovino bateu a cabeça e ficou inconsciente.
 
Algum tempo depois, num período que para Jovino pareceu uma eternidade, o menino abriu os olhos e aos poucos percebeu que estava num quarto todo branco. Em instantes, uma mulher estranha vestida toda de branco apareceu e, vendo Jovino acordado, sorriu, afagou a cabeça dolorida do garoto, disse que estava tudo bem e saiu. Dali em instantes um homem igualmente vestido todo de branco veio acompanhado da mulher de branco e examinou Jovino cuidadosamente. Enquanto isso, ele explicou o que havia acontecido e que lugar era aquele.
 
Depois de ser levado para lá e para cá pela correnteza, Jovino havia desembocado numa boca de lobo e ficou enroscado bem onde foi avistado por um homem que estava passando por ali na hora. Este, ajudado por outros transeuntes, conseguiu remover a grade da boca de lobo e tirar Jovino dali. Alguém chamou uma ambulância e o homem acompanhou Jovino até o hospital, onde foi internado e agora estava em estado de observação. Como ninguém sabia de onde era e quem eram seus pais, todos resolveram esperar Jovino voltar à consciência para descobrir esses dados. Mas a enfermeira, ao tirar as roupas de Jovino, viu que havia costurado no interior da camisa um nome e um telefone. Ela resolveu checar e assim encontrou os pais do menino e relatou o ocorrido e forneceu o endereço do hospital.
 
Felizmente, fora alguns hematomas devido aos raspões e pancadas dentro das galerias de água e o susto, tudo estava bem com Jovino. O médico foi até a porta e chamou alguém. Os pais e o irmão mais velho de Jovino entraram e se emocionaram com o reencontro. O médico orientou os pais de Jovino sobre os cuidados necessários para o restabelecimento do menino e em breve deu alta para que ele voltasse para casa.
 
Porém, algo não ficou esclarecido: quem era o homem que o salvou e o levou para o hospital? No dia que Jovino recebeu alta e estava pronto para ir embora, ele perguntou ao médico sobre a identidade de quem o salvara. O médico apenas informou que o homem o trouxera ao hospital e permanecera ali até ter certeza que ele estava vivo. Diante da afirmativa do médico, ele apenas deixou Jovino aos cuidados dele e foi embora. O médico se esqueceu de perguntar quem ele era. Jovino agradeceu e se despediu do médico e partiu para casa junto com sua mãe.
 
Jovino nunca veio a conhecer aquele que lhe salvara a vida. No caminho para casa, ele e sua mãe foram abordados por um assaltante no ponto de ônibus e este, impetuoso, não se contentou em tirar a bolsa da pobre mulher: atirou nela e no menino que tentava em vão defender a mãe agarrando-se a ela com quem agarrasse sua vida. O assaltante, logo após o latrocínio, foi atropelado por um ônibus quando tentou escapar atravessando a rua.
 
Jovino e sua mãe deram entrada já sem vida no mesmo hospital que cuidara de menino.
 
Desta vez, ninguém pôde salvar suas vidas.
criado por André Marcon    12:17 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , , ,

11/10/08

O CARRO VOADOR

Certa manhã na casa da família classe média alta, dois irmãos, Gabriel, 4 anos, e Gustavo, 8, entretém-se cada um à sua maneira: o mais novo com seus carrinhos e aviõezinhos de brinquedo e o mais velho, com um jogo online.
 
Cada menino parece mergulhado em seu próprio universo, alheio a tudo ao seu redor.
 
Gustavo que, apesar de ser criança, domina a informática melhor que seus pais e tira de letra as fases mais difíceis do jogo. No mundo virtual, ele se faz passar por um veterano que até serve de tutor para outros jogadores. Eles até acreditam que Gustavo seja um cara maduro e senhor de si que não vacila em atingir seus objetivos. É claro que Gustavo usa dados falsos para que não o menosprezem por sua pouca idade.
 
Já o pequenino Gabriel não se interessa muito por computadores, embora às vezes Gustavo o coloque para jogar alguns joguinhos bem fáceis. Gabriel prefere brincar com algo mais palpável que figuras numa tela de computador. Por isso ele passa horas concentrado em seu mundo particular, onde é dono de uma frota de veículos e aviões que vivem circulando para lá e para cá em rodovias e rotas de vôo imaginárias.
 
Nessa manhã, porém, durante uma mudança de fase no jogo, Gustavo percebe que Gabriel, que brinca ao seu lado, sentado no chão e rodeado por seus carrinhos e aviõezinhos, segura um dos carrinhos e o movimenta no ar, como se fosse um aviãozinho. Acompanhando o movimento, Gabriel faz com a boca o ruído de um avião em pleno vôo. Estranhando a novidade, Gustavo pergunta a Gabriel o que significa isso.
 
— É meu carro voador. Agora “tô” voando pra China com ele. Shhhhhhh… (era esse o ruído das “turbinas” do carro voador criado por Gabriel).
 
— Bobo. Carro não voa. O que voa é avião e helicóptero. — responde Gustavo, com cara séria.
 
— Carro voa sim, bobão. — retruca Gabriel, ignorando o irmão e continuando o “vôo” de seu carrinho em direção à China.
 
Nesse dia, os pais de Gabriel e Gustavo foram de carro para uma cidade vizinha resolver um assunto deles. Por isso deixaram os filhos aos cuidados da empregada.
 
Resolvido o assunto pendente, quando retornam para casa, num trecho da rodovia que fica num desfiladeiro, o carro derrapa e atravessa a barra de segurança na borda da estrada, despencando ladeira abaixo. Um motorista que estava próximo do local testemunha o acidente e aciona o resgate.
 
A equipe de busca, com muito custo, chega ao carro do casal, agora totalmente destruído, e encontram a mulher e o homem agora sem vida. Identificadas as vítimas, as autoridades entram em contato com parentes.
 
A notícia chega à casa dos despreocupados irmãos e uma nuvem de tristeza encobre o lugar. Os tios de Gabriel e Gustavo, que preferem mostrar-lhes a realidade a enganá-los com mentiras protetoras, contam para eles o acidente ocorrido e o que será deles agora que não têm mais pais. Os irmãos, chocados com a notícia, lamentam a perda cada um à sua maneira.
 
Durante o enterro, depois de muito chorar, estão Gabriel e Gustavo diante do túmulo de seus pais. Terminado o serviço funerário, neste instante, Gustavo encara Gabriel e diz:
 
— Eu não disse que carro não voa?
criado por André Marcon    14:20 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , ,
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