PAPÉIS AVULSOS

BLOG DE AFORISMOS E “DESAFORISMOS” EM GERAL!

13/12/08

SOMBRAS

Caminhando por uma rua onírica, Alouilson segue seu rumo.
 
Ao seu lado, o velho amigo Evileison.
 
Os dois mantêm uma marcha sincronizada.
 
Permeando o trajeto, amenidades ditas, mas não absorvidas.
 
Papo furado esquecido tão logo é emitido.
 
É nesse cenário que surge o nome de Vandercléia.
 
Vandercléia é a namorada de Alouilson.
 
— Eu tenho uma linda namorada — diz ele.
 
— Eu tenho uma linda namorada — repete uma voz como que um eco.
 
— Sim, ela é linda — concorda outra voz, esta, desconhecida.
 
— Minha namorada é linda — torna a voz do eco.
 
— Linda ela é — completa a voz desconhecida.
 
Atordoado, Alouison olha para o lado onde está o amigo e não o vê.
 
Evileison desapareceu.
 
Em seu lugar, dois vultos escancarando um sorriso enorme.
 
Quando Alouilson os vê, os dois vultos repetem a ladainha:
 
— Eu tenho uma linda namorada.
 
— Sim, ela é linda.
 
— Minha namorada é linda.
 
— Linda ela é.
 
Atordoado, Alouilson inquire:
 
— Onde está Evileison? Quem são vocês?
 
Impassíveis, os vultos repetem a mesma conversa, agora em tom jocoso:
 
— Eu tenho uma linda namorada.
 
— Sim, ela é linda.
 
— Minha namorada é linda.
 
— Linda ela é.
 
Isso deixa Alouison extremamente irritado.
 
Quando ele se prepara para intimar os dois vultos a responderem sua pergunta, eis que surge um terceiro vulto, este com mais de dois metros de altura. Seu semblante, diferente dos dois primeiros, é sereno.
 
É com essa serenidade que o grande vulto intima os dois outros vultos:
 
— Parem de incomodar esse homem. Voltem para seus afazeres e nunca mais repitam o que fizeram.
 
Os dois vultos, agora sem o enorme sorriso no rosto, acatam a ordem em silêncio e desaparecem. Com eles, o grande vulto também some sem deixar rastros.
 
Surpreso com o ocorrido, Alouilson olha para o lado e vê o amigo. Este parece nem ter percebido o que ocorrera, já que mantinha a mesma postura do início.
 
Por via das dúvidas, Alouilson pergunta-lhe:
 
— Onde tu te meteu, homem?
 
Agora a surpresa é de Evileison:
 
— Que papo é esse agora? Não sai do seu lado. Você que interrompeu a conversa e ficou com que em transe.
 
Alouilson não entendeu nada e achou melhor não comentar sobre os vultos.
Nisso, Evileison diz:
 
— Olha, não é a Vandercléia do outro lado da rua?
 
Alouilson olha para onde Evileison aponta e vê sua linda namorada, aos beijos e abraços com um desconhecido.
 
A visão corta o coração de Alouilson, mas este nada diz. Apenas se lembra dos vultos e comenta, em tom lacônico:
 
— É o preço que se paga por se ter uma namorada tão linda.
criado por André Marcon    15:50 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , ,

6/12/08

FIM DE EXPEDIENTE

O Sol já está se pondo no horizonte, e as sombras começam a tingir os prédios da cidade.
 
Na janela de um apartamento, Harmagedon contempla a paisagem antes de fechar o escritório e ir embora.
 
O corre-corre das pessoas e dos carros parecem não incomodá-lo. Pelo contrário. Esses ruídos urbanos são para Harmagedon como que os sons da vida. Ele não imagina uma vida sem aqueles barulhos característicos da urbe.
 
Harmagedon, ao mesmo tempo em que contempla a paisagem, pensa sobre a semana que passou e o quanto está aliviado dela ter terminado.
 
O fato de que dali dois dias tudo começaria novamente não o perturba. “48 horas é tempo suficiente para recobrar as energias”, pensa.
 
Nesse momento, Harmagedon lembra que ainda tem um serviçinho para concluir. “Ainda bem que me lembrei a tempo”, pondera, “Não gostaria de resolver isto depois de ter chegado em casa”.
 
Sacando seu telefone celular, Harmagedon seleciona um número de sua agenda no celular e clica no botão de discagem. Dois, três toques depois, uma voz grave atende:
 
— Veiga.
 
Harmagedon inicia o assunto pendente:
 
— Veiga, que bom te encontrar a tempo. Quase vou embora sem te ligar. É sobre aquele assunto inacabado.
 
Ouve-se um grunhido do outro lado da linha, por fim, Veiga responde:
 
— Aquilo já está acertado, Harmagedon. Não precisa mais se preocupar com isso.
 
— Acertado como, Veiga? Lembra que eu falei… — Harmagedon tenta argumentar, mas é interrompido:
 
— Sim, você falou que o melhor era esperar, mas o tempo urge e tive que tomar uma iniciativa.
 
— Vai me dizer que você… — balbuciou Harmagedon.
 
— Exato. Três tiros. Um na testa e dois no peito do desgraçado. — respondeu Veiga, impassível.
 
— Você sabe que hoje em dia isso dá mer… — retruca Harmagedon, inquieto.
 
— Dá merda pra quem tem que dar, o que não é o caso. Já mandei desovar o corpo em algum aterro e tá tudo certo. — diz Veiga.
 
— E sua mulher? — indaga Harmagedon.
 
— Aquela puta também já levou o dela. — diz Veiga, levemente irritado.
 
Harmagedon pensa o pior e prepara-se para saber do corpo da agora ex-mulher de Veiga. Antes disso, o homem esclarece.
 
— Pensa que passei chumbo na vadia, Harmagedon? Qual! Você sabe que a puta iria viajar com a mãe esses dias, não? Então! Eu “plantei” drogas na bagagem das duas e deu o maior rebosteio no aeroporto. Quando ligaram pra cá, eu já estava com a papelada do divórcio na mão e despachei a biscate. Agora ela tá lá levando dedada das presidiárias! — conta Veiga, agora com ar triunfal.
 
— Devo concluir então que o caso está encerrado? — pergunta Harmagedon.
 
— Exato. Fim de papo. Aquela puta que vá botar chifre na rameira que a pariu. — responde Veiga. — Quanto ao pagamento, já depositei na sua conta. Muito bom trabalho o seu. Sem você, eu estaria até agora levando chifre daquela vadia.
 
— Eu que agradeço. Fico feliz que tudo tenha se resolvido para você. — diz Harmagedon.
 
— Pode deixar que eu irei fazer ótimas recomendações sobre sua agência aos meus amigos e clientes. — continua Veiga.
 
— Muito agradecido, Veiga. Sabe que se precisar, pode contar comigo. — responde Harmagedon.
 
— Precisarei sim, já arrumei um brotinho de 19 anos pra substituir a anterior. Sabe como é… — diz Veiga, marotamente.
 
— Claro, claro. Não perde tempo, hein, Veiga. Tá certo você. — responde Harmagedon.
 
— Até mais, Harmagedon. Sucesso para você! — despede-se Veiga.
 
— Para você também, Veiga! Tudo de bom. — despede-se Harmagedon, desligando o celular e devolvendo-o ao suporte em seu cinto.
 
Harmagedon contempla o cenário agora escuro e salpicado de luzes da cidade e fecha a janela, apaga as luzes e tranca a porta.
 
Agora sim o expediente havia terminado.
criado por André Marcon    14:52 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , ,

29/11/08

NAS GALERIAS

Chuvas torrenciais desabam sobre a cidade.
 
Devido ao lixo acumulado pelas águas nas bocas de lobo, pontos de alagamento surgem por toda a cidade.
 
Onde a vazão da água tem curso livre, uma enxurrada segue freneticamente rumo às galerias de água e esgoto.
 
É nessa enxurrada que encontramos o menino Jovino tentando atravessar um fluxo de água. O objetivo dele é atravessar aquele fluxo para ir para casa.
 
Jovino estava na casa de um amigo da rua de baixo quando a chuva começou. Munido de um guarda-chuva que levara consigo para caso chovesse, quando ele saiu da casa do amigo, apenas garoava. Mas logo a garoa ganhou força e um vento impetuoso fez coro com as trovoadas e relâmpagos. Jovino apertava o passo, tentando manter o guarda-chuva equilibrado, quando topou com a enxurrada bloqueando a passagem. Jovino tenta passar no meio da água, mas o pior acontece.
 
Jovino escorrega no asfalto molhado e liso, o guarda-chuva voa longe ao sabor do vento e a força da água empurra Jovino para dentro do bueiro desprovido de grades. Nem houve tempo do menino reagir. Quando ele deu por si, já estava sendo levado pelas águas dentro das galerias.
 
Desesperado, o menino chorava e gritava nas escuras galerias subterrâneas. O mau cheiro característico começou a sufocá-lo, abafando o choro e os gritos. Jovino viveu momentos de terror como nunca antes. A tubulação, sempre descendente, fazia curvas e às vezes topava com bifurcações, que faziam o menino dar solavancos e raspar a pelo nos tubos de concreto. Dali a pouco, Jovino bateu a cabeça e ficou inconsciente.
 
Algum tempo depois, num período que para Jovino pareceu uma eternidade, o menino abriu os olhos e aos poucos percebeu que estava num quarto todo branco. Em instantes, uma mulher estranha vestida toda de branco apareceu e, vendo Jovino acordado, sorriu, afagou a cabeça dolorida do garoto, disse que estava tudo bem e saiu. Dali em instantes um homem igualmente vestido todo de branco veio acompanhado da mulher de branco e examinou Jovino cuidadosamente. Enquanto isso, ele explicou o que havia acontecido e que lugar era aquele.
 
Depois de ser levado para lá e para cá pela correnteza, Jovino havia desembocado numa boca de lobo e ficou enroscado bem onde foi avistado por um homem que estava passando por ali na hora. Este, ajudado por outros transeuntes, conseguiu remover a grade da boca de lobo e tirar Jovino dali. Alguém chamou uma ambulância e o homem acompanhou Jovino até o hospital, onde foi internado e agora estava em estado de observação. Como ninguém sabia de onde era e quem eram seus pais, todos resolveram esperar Jovino voltar à consciência para descobrir esses dados. Mas a enfermeira, ao tirar as roupas de Jovino, viu que havia costurado no interior da camisa um nome e um telefone. Ela resolveu checar e assim encontrou os pais do menino e relatou o ocorrido e forneceu o endereço do hospital.
 
Felizmente, fora alguns hematomas devido aos raspões e pancadas dentro das galerias de água e o susto, tudo estava bem com Jovino. O médico foi até a porta e chamou alguém. Os pais e o irmão mais velho de Jovino entraram e se emocionaram com o reencontro. O médico orientou os pais de Jovino sobre os cuidados necessários para o restabelecimento do menino e em breve deu alta para que ele voltasse para casa.
 
Porém, algo não ficou esclarecido: quem era o homem que o salvou e o levou para o hospital? No dia que Jovino recebeu alta e estava pronto para ir embora, ele perguntou ao médico sobre a identidade de quem o salvara. O médico apenas informou que o homem o trouxera ao hospital e permanecera ali até ter certeza que ele estava vivo. Diante da afirmativa do médico, ele apenas deixou Jovino aos cuidados dele e foi embora. O médico se esqueceu de perguntar quem ele era. Jovino agradeceu e se despediu do médico e partiu para casa junto com sua mãe.
 
Jovino nunca veio a conhecer aquele que lhe salvara a vida. No caminho para casa, ele e sua mãe foram abordados por um assaltante no ponto de ônibus e este, impetuoso, não se contentou em tirar a bolsa da pobre mulher: atirou nela e no menino que tentava em vão defender a mãe agarrando-se a ela com quem agarrasse sua vida. O assaltante, logo após o latrocínio, foi atropelado por um ônibus quando tentou escapar atravessando a rua.
 
Jovino e sua mãe deram entrada já sem vida no mesmo hospital que cuidara de menino.
 
Desta vez, ninguém pôde salvar suas vidas.
criado por André Marcon    12:17 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , , ,

22/11/08

A IGREJA DESCONHECIDA

 

Joverclaysson se tornara pastor evangélico há pouco tempo.
 
Através de um curso profissionalizante, conquistara o diploma e depois arranjou licença para abrir uma nova denominação num bairro da periferia da cidade.
 
Juntando umas economias, alugou um pequeno cômodo onde daria inicio à sua missão evangelizadora. Comprou um jogo de cadeiras de plástico e uma pequena caixa de som usada e um microfone também usado. Improvisou um pedestal para a bíblia e um tapete completava a decoração do estabelecimento religioso.
 
Agora só faltavam os fiéis.
 
Incansável, Joverclaysson mandou fazer um milheiro de pequenos panfletos anunciando o início das atividades da nova igreja e o endereço completo do local. Uma passagem bíblica completava a propaganda. O resto seria na base do boca-a-boca com os moradores do bairro e adjacências.
 
Feito o trabalho de divulgação, no dia e hora marcados para a inauguração do humilde templo, o que se viu foi apenas um cenário de cadeiras vazias e um silêncio desabonador tomando conta do ambiente. Ninguém se dignara a presenciar o nascimento de uma nova igreja. Apenas o solitário pastor com sua surrada caixinha de som com o microfone plugado a ela e a bíblia aberta em um salmo completava o cenário triste de um fracasso inicial.
 
As horas se passaram e ficou claro para Joverclaysson que ninguém iria vir à sua igreja. Só não se sentia sozinho porque acreditava que seu deus não o abandonara e estava presente ali para testemunhar a profissão de fé de seu servo. Por isso, tomando o microfone em mãos, Joverclaysson decidiu cumprir com sua missão ali mesmo, sem fiéis, mas com as paredes, cadeiras e lâmpadas a serem ouvintes de suas palavras.
 
Com porte altivo, Joverclaysson iniciou o culto mais incrementado, solene e ungido como jamais se ouviu. Com desenvoltura, expôs a palavra de seu deus com um verdadeiro orador e certamente encheria de orgulho os mestres que o educaram no curso para pastor. Impostando a voz, Joveclaysson fez um sermão impecável. Orou ao seu deus como verdadeiro íntimo do mesmo. Joverclaysson não deixou nada a dever aos mais renomados exegetas, os melhores hermeneutas e os mais carismáticos pregadores da palavra de seu deus.
 
Diante da porta aberta, um ou outro transeunte olhava para dentro e via um sujeito estranho falar sozinho com uma caixa de som podre com o volume no talo. Quem via a cena se limitava ou a reprovar com um movimento de cabeça ou rir da situação ridícula em que o sujeito estranho estava. Ninguém notou que ali dentro daquele cômodo estava um legítimo apóstolo contemporâneo.
 
O culto solitário do pastor Joverclaysson durou nada menos que quatro horas ininterruptas. A partir do momento em que o jovem pastor empunhara o microfone, sentiu um poder emanar dentro de si e o conduzir durante todo o trabalho. Findado o culto, já eram quase onze horas da noite. Lá fora estava tudo escuro e ninguém passava na rua.
 
Joverclaysson já havia guardado tudo e estava apagando as luzes para trancar a igreja quando três jovens mal-encarados apareceram e dominaram o pastor. Os três fizeram o pastor acender as luzes e entregar tudo o que havia de valor no recinto. Amedrontado, Joverclaysson balbuciou que tudo o que tinha era o microfone e a caixa de som, que a igreja abrira naquele dia e que ninguém apareceu para o culto. Furiosos, os três jovens encheram de porrada o pobre pastor até deixá-lo estirado quase sem vida no chão. Pra completar, os três jovens roubaram o microfone e a caixa de som e fugiram do local sem que ninguém percebesse o ocorrido.
 
Estatelado no chão, o pastor, perdendo vagarosamente a consciência, balbuciou um trecho do seu livro considerado sagrado:
 
Elói, Elói, lammá sabactáni?
 
E morreu ali mesmo, no chão da igrejinha que ninguém conheceu.
criado por André Marcon    13:09 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , ,

15/11/08

O VIGÁRIO PEDÓFILO

 

Na cidade do interior, o pároco é autoridade inconteste.
 
Para os habitantes da cidade, é deus no céu e o padre na terra.
 
Pelo menos era assim até acontecer um caso que virou a cidadezinha de pernas pro ar.
 
Tudo começou quando Mariazinha, menina de sete anos que começou a reclamar de dores no bumbum, foi examinada pelo médico local.
 
Este constatou, espantado, que a menina havia sido vítima de violência sexual.
 
A novidade pôs a família da menina em polvorosa. “Quem foi o fidiégua que fez mal à minha filha?” berrava o pai desesperado.
 
 Como se não bastasse, outros casos idênticos, tanto em meninas quanto em meninos, começaram a aparecer.
 
Num piscar de olhos a cidade toda bradava por justiça e um cidadão desconfiava do outro de ser o criminoso que estava molestando a criançada.
 
O pároco, senhor bondoso e sábio, apaziguava os ânimos com palavras de amor e fé, e procurava convencer de que deus iria dar jeito em tudo.
 
As crianças, amedrontadas, se recusavam a falar quem tinha feito aquilo com elas, ou se falavam, diziam coisas desconexas que em nada ajudava a elucidar o caso.
 
“Estão traumatizadas, as coitadinhas!” concluiu o delegado.
 
Mas o que ninguém desconfiava é que o povo descobriria o culpado da pior forma possível.
 
Certo domingo, depois da escola dominical ministrada pelo pároco, este chamou Alfredinho, de oito anos, e pediu que permanecesse no local depois do término da aula. Feito isso, o bom padre se aproximou do menino e começou a acariciar-lhe a face. O menino, tremendo nas bases, pressentia o que iria acontecer.
 
O padre mandou o menino se ajoelhar. Este obedeceu. Levantando a batina, o padre desabotoou a calça e pôs pra fora seu membro semi-ereto. Alfredo arregalou os olhos e tentou levantar um olhar suplicante ao padre, mas este ordenou que Alfredo pusesse o pau na boca e chupasse com vigor. Só restou ao pobre menino acatar a ordem.
 
Enquanto Alfredo chupava o pau do padre, ele se lembrou da profunda tristeza que os pais sentiam por tudo o que acontecia. Alfredo tinha uma irmãzinha um ano mais nova que ele e esta, que também era seviciada pelo padre, chorava que nem uma condenada e se recusava a dizer qualquer coisa sobre o culpado. Afinal, o padre era uma autoridade maior até que o prefeito ou qualquer outro. Quem iria acreditar que era justamente ele quem fazia mal às crianças. Independente disso, o padre ameaçava de excomunhão quem quer que levante a voz contra ele. Por isso, as crianças estavam de mãos atadas, apesar de não entenderem bem o que significava essa tal de excomunhão. Mas o padre era hábil em fazer com que as crianças, se não entendessem seu significado, temessem a tal da excomunhão mais do que a morte.
 
Tudo isso passou pela mente confusa do pobre menino e uma raiva enorme foi tomando conta de seu íntimo. De repente, todo temor que sentia virava ódio em seu estado puro. Ele precisava fazer alguma coisa senão todos continuariam sofrendo. Mas, o que fazer? E as ameaças do padre? Será que seus pais ficariam furiosos com ele por desobedecer à autoridade eclesiástica? Decisões, decisões… Era responsabilidade demais para um menino de oito anos.
 
Mas Alfredo sentiu que tinha que fazer algo e fez a única coisa que julgou suficiente para provar a culpa do padre ante os adultos da cidade: com a força de seu ódio, lascou a maior mordida que já dera e arrancou um grande naco do pau do padre, que começou a esguichar sangue, manchando os móveis, o chão, as roupas do padre e o menino, que, com nojo, cuspiu o pedaço de pau do padre e saiu berrando pro mundo inteiro ouvir.
 
Não demorou muito para que uma multidão acudir os berros do menino. Imagine o susto ao ver este com a boca e o peito todo ensangüentado. Este, cheio de coragem, berrou que o padre era o culpado pelos estupros e que havia sido molestado naquele momento, mas mordeu o pau do padre e saiu correndo. Por isso estava todo sujo de sangue. A cara de espanto dos que ouviram tal testemunho foi indescritível. Houve até beata desmaiando. Alguns cidadãos entraram na igreja e encontraram o padre contorcendo-se de dor em meio a uma poça de sangue.
 
O padre foi hospitalizado e, depois, julgado pelo estupro de pelo menos 15 crianças. Obviamente que a diocese fez tudo para pôr panos quentes e diminuir os estragos na reputação da igreja. O padre pedófilo foi transferido para um lugar distante. Aos poucos, tudo foi se normalizando na cidadezinha do interior. As marcas deixadas nas vítimas, todos julgaram sarar com o tempo.
 
Alfredo, o herói que desmascarara o criminoso, foi esquecido logo depois, tanto que ninguém ficou sabendo que o menino, quando cresceu, entrou para um seminário, foi ordenado padre e que tinha sido designado para uma cidade igualmente pequena longe dali. E ninguém soube dos casos de violência sexual contra menores que começaram a ocorrer naquela cidade desde então.
criado por André Marcon    14:04 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, ,

8/11/08

BELEZA INTERIOR

Num dia feio em uma cidade feia, numa escola feia a professora feia falava aos seus alunos feios:
 
— Pois então é isso, crianças: cada grupo de três deve passar pelas casas do bairro escolhido para arrecadar alimentos. O grupo que mais arrecadar, mais pontos irá ganhar.
 
Taís, Mara e Solange, três meninas feias daquela classe feia, uniram forças para no bairro feio em que deveriam arrecadar alimentos conseguir a maior quantidade de pontos.
 
No dia seguinte, as três meninas feias se encontraram numa esquina feia e para o bairro feio se dirigiram.
 
Na primeira casa feia, uma velha feia olhou com cara feia e bateu a porta na cara das três meninas feias.
 
Na segunda casa feia, um senhor feio doou uma lata de ervilhas feia com a data de validade vencida.
 
Na terceira casa feia, uma menina feia de seus 13 anos feios doou um pacote feio de absorventes íntimos. As três meninas feias tentaram explicar que só arrecadavam alimentos, mas a menina feia já havia fechado a porta feia.
 
Na quarta casa, tão feia quanto às demais, as três meninas feias tocaram a campainha feia e um som feio ecoou por toda casa feia. Logo, um senhor feio, mais feio que a média, abriu a porta feia e encarou as três meninas feias.
 
— O que desejam? — perguntou com voz feia o homem feio.
 
As três meninas feias explicaram a que vieram e o senhor feio, abrindo um sorriso feio, convidou-as para entrar, oferecendo um copo de água.
 
As três meninas feias aceitaram o convite e adentraram a casa feia.
 
Uma vez lá dentro, o homem feio trancou a porta feia a chave e, com uma gargalhada feia, pôs-se a perseguir as três meninas feias. Elas, aterrorizadas, corriam pra lá e pra cá, sem encontrar saída. Gritavam, choravam, imploravam com as faces feias cheias de lágrimas feias, mas ninguém as socorreu.
 
Finalmente, o homem feio conseguiu pegar uma das meninas feias. Com força descomunal, ele dominou a menina feia, rasgou-lhe as roupas feias e lambeu o corpo feio da menina feia com sua língua feia. Arrancando a calcinha feia da menina feia, ele meteu a língua e depois os dedos na xoxota feia e depois a estuprou.
 
Feio o serviço feio, o homem foi até a cozinha e pegou uma faca. Voltou até onde a menina feia estava estirada no chão e, com a faca, abriu-lhe o ventre feio, expondo as tripas feias e ensangüentadas. Com olhar faminto, o homem feio comeu a buchada crua mesmo. Parecia algum tipo de animal feio a devorar sua caça feia na floresta feia.
 
As outras duas meninas feias, estranhando o silêncio feio que tomava conta do lugar, sentiram o cheiro de sangue e foram ver, devagarzinho e silenciosamente, o que acontecera com sua amiga. Chegando ao lugar do feio festim, berraram horrorizadas ao ver a amiga feia morta e com a barriga aberta. E berraram mais ainda ao constatarem que o homem feio banqueteava as tripas feias da amiga feia.
 
Os gritos feios das meninas feias atiçaram o homem feio que, aproveitando o estupor das duas meninas feias ante aquela cena tétrica, dominou-as e repetiu o expediente: rasgou suas roupas feias, estuprou seus corpos feios e, por fim, enfileirando os corpos feios no chão, abriu a barriga feia das meninas feias com a faca feia e devorou as tripas feias que recheavam aqueles corpinhos feios.
 
Ao final de lauto banquete de tripas feias de meninas feias, serenamente, o homem feio limpou aquela bagunça feia e se livrou dos restos feios das meninas feias na fossa feia nos fundos da casa feia.
 
Depois, tomando uma taça feia de vinho feio, o homem feio passou a divagar sobre o que ocorrera, e questionou o porquê das duas meninas feias terem se apavorado tanto ante as tripas feias da amiguinha feia morta por ele. E concluiu que aquele papo de “beleza interior” era balela, caso contrário, as tripas expostas não teriam amedrontado seu apetitoso jantar.
criado por André Marcon    12:53 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , ,

1/11/08

O ÚLTIMO QUADRO

O artista fracassado, antes do último ato de sua inútil vida, decide pintar o derradeiro quadro que ninguém se interessará após sua viagem rumo ao nada.
 
Tintas de variadas matizes, pincéis gastos de tanto pintar o irrelevante, tela branca como a visão do Além-morte, põe-se o artista fracassado a preencher de tinta o que a vida não lhe preencheu de glória e reconhecimento.
 
Com pinceladas vigorosas, o artista fracassado despe-se de sua incompetência artística e imprime na tela o que lhe passa pela cabeça nos últimos instantes de vida.
 
Enquanto pinta, o cérebro febril do artista fracassado entoa uma cantiga inventada na hora:
 
A criança indesejada, expelida do ventre pecaminoso,
É jogada na lata de lixo e esquecida pelo casal criminoso
Sem mesmo ver a luz do mundo, sem chorar nem gritar
Apenas apodrece no lixo sem ninguém sua presença notar.
 
O motorista despreocupado dirigindo seu carrinho na rua
Não tem tempo de desviar do caminhão desgovernado
A colisão inevitável esmaga seu corpo nas ferragens
Transformando-o num bolo de carne ensangüentado.
 
A prostituta aidética mantém a clientela em dia
Transmitindo a doença e recebendo o seu michê
Tantos soropositivos contaminados por descuido
Igual à prostituta aidética, não tardam a morrer.
 
A esposa infiel encontra o amante depois de sair o marido
Em lascivo colóquio, enfeita de chifres a testa do traído
Mas o marido chega cedo e descobre a infidelidade marital
Pega o revólver, mata a mulher e o amante e se mata afinal.
 
O traficante de drogas faz seus esquemas e fica por cima
Destrói a concorrência e toma para si os melhores pontos
Capangas, armas, dinheiro e mulher são o que lhe motiva
Os inimigos se vingam, o matam e tomam seus bens todos.
 
O estuprador deixa nas vítimas uma marca profunda
Marca psicológica pior que qualquer coisa do mundo
Preso o estuprador, castigado pelos demais detentos
De estuprador vira estuprado, a dor cala-lhe fundo.
 
Corruptos, ladrões, estelionatários, usurpadores e assassinos
Toda corja que povoa o mundo desde e para todo o sempre
Essa canalha toda um dia morre e apodrece Igualmente
Numa cova humilde ou de luxo, devorados pelos vermes famintos.
 
Assim cantava em pensamento o artista fracassado.
 
Pinceladas mais longas terminam de preencher a tela. O quadro está quase terminado. O artista fracassado escolhe matizes que dêem o toque final em sua última obra.
 
Pouco depois, eis o quadro pronto. Pronto para ser ignorado pelo público e pela crítica. Tal quadro poderia ficar exposto no ateliê para apreciação das baratas, moscas, aranhas e demais insetos com um gosto para a arte mais apurado do que muito crítico de arte. É para eles, os insetos, que esta obra existe. E por falar em insetos, como esquecer as traças? Estas sim devoradoras de arte, literalmente! Delas é esta obra-prima!
 
Concluído isso, o artista fracassado se dirige à escrivaninha e abre uma das gavetas. Tira de lá um revólver calibre 38, fecha a gaveta e retorna diante do seu recém-pintado quadro.
 
— Falta o toque final. — diz o artista, apontando o revólver para uma das têmporas.
 
Um disparo. A bala atravessa o crânio, fazendo um buraco de fora a fora. Sangue e miolos respingam pelo quadro recém-pintado.
 
O corpo do artista fracassado tomba diante da obra e lá permanece, até entrar em adiantado processo de decomposição, empesteando todo o ambiente e atraindo larvas, ratos e formigas.
 
No fim, os únicos apreciadores do artista e de sua arte.
criado por André Marcon    15:41 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, ,

25/10/08

A PEQUENA PRETENDENTE

Em frente ao colégio da cidade no fim das aulas, como de costume, uma multidão de estudantes deixa o recinto rumo a suas casas.
 
São alunos do ensino fundamental, com idade que varia dos oito aos quatorze anos. Todos espelhando o futuro da Nação.
 
Mais ou menos no mesmo horário de saída dos alunos, Aparício, 28 anos, funcionário de um escritório de contabilidade, cruza a leva de estudantes, relembrando tempos idos de quando ele era um deles, cheio de vida, sonhos e metas para o futuro.
 
Hoje Aparício é apenas um empregado com carreira relativamente estável, solteiro, dono de um casebre sem muito luxo e sem carro. Muitos dos sonhos de juventude tiveram que ser deixados de lado devido às intempéries da vida. No campo amoroso, Aparício teve alguns casos, mas nada que evoluísse para um noivado e um matrimônio. No momento, prefere ficar sozinho e aproveitar a solteirice. Sem planos para o futuro, Aparício apenas leva a vida.
 
Quando passa por entre os jovens estudantes, Aparício vê em cada um deles um pouco de si e por um instante medita sobre as coisas da vida. E foi nesse momento que Aparício notou que uma aluna que está próxima a ele, como quem espera alguém que venha buscá-la, está olhando-o fixamente.
 
Uma menina aparentando ter onze ou doze anos, pele clara e cabelos negros, amarrados com fitas vermelhas em dois “rabos”, um em cada lado da cabeça, olhos verdes e boca rosada aparenta ter interesse naquele sujeito que já há um bom tempo passa por aquele lugar bem na hora da saída dos alunos, como se cumprisse um ritual. Vestindo o uniforme da escola (camiseta branca com gola e logotipo da escola azul, calça jeans e tênis) e usando uma mochila cor-de-rosa nas costas, ela é apenas mais uma aluna entre tantos outros alunos daquela que é uma das maiores escolas da cidade. Mas por algum motivo, naquele dia, a curiosidade da menina chamou a atenção de Aparício.
 
Aparício, apesar de passar todos os dias em frente à escola na hora da saída, nunca tinha notado a presença daquela menina até aquele dia. No meio de tantos alunos uniformizados, é difícil se ater em um aluno em particular, por isso tal acontecimento causou certa impressão em Aparício.
 
Enquanto ele pensava nisso, um carro estacionou perto da misteriosa menina e ela, rapidamente, entrou no carro. Quem ela esperava havia chegado, enfim.
 
Aparício também deixou o local e foi para casa, mas não sem guardar na cabeça o estranho acontecimento.
 
No dia seguinte, ao passar em frente à escola, como de costume, Aparício procura prestar atenção e ver se vê a tal menina novamente. Sem saber direito o porquê, ele deseja apenas ver novamente a garota. Porém, não a encontra. Desapontado, ele vai embora.
 
Nos dias subseqüentes, Aparício passou por entre os alunos na hora da saída sempre atentando para o rosto deles, na esperança de ver mais uma vez a menina que chamara sua atenção. E em nenhum dos dias ela apareceu.
 
Certo dia, quando Aparício já havia desistido de encontrar a menina misteriosa, quando ele passa por entre os alunos como de costume, depois de virar uma esquina, ele ouve alguém chamá-lo atrás de si. Ele vira para olhar e encontra a menina que procurara todos aqueles dias.
 
Ela está vestida e penteada do mesmo jeito daquele dia. A mesma mochila rosa está em suas costas. O mesmo olhar penetrante encara Aparício ao mesmo tempo com firmeza e com hesitação.
 
 Refeito da surpresa, Aparício pergunta à menina o que ela deseja, fingindo indiferença. Não pegaria bem um “tiozinho” demonstrar alegria em ver uma pessoa que não conhece ainda mais alguém com menos da metade de sua idade.
 
A menina, deixando a hesitação de lado e reunindo coragem, diz, com convicção:
 
— Te amo! Quer ser meu namorado?
 
Aquelas palavras causam tamanha impressão em Aparício que, estupefato, não consegue reagir a tal novidade.
 
Ao mesmo tempo, com o rosto todo avermelhado, a menina cai em si e, envergonhadíssima, sai correndo sem esperar a resposta. Aparício só pôde observar aquele pequeno vulto sumir na distância.
 
Depois desse dia Aparício nunca mais viu sua pequena pretendente. E em seu íntimo desejou nunca mais vê-la.
 
Ao se recordar do ocorrido, Aparício lamenta apenas não ter tido a oportunidade de saber pelo menos o nome daquela criatura cheia de sonhos, esperanças e metas para o futuro, além de uma coragem ímpar que a fez expor seus sentimentos a um total estranho, sem medo das conseqüências.
 
O que Aparício não soube foi que, naquele dia da “declaração”, após a cena que causara tal impressão nele, a menina, recompondo-se de sua “vergonha”, encontrou-se com as amigas perto dali e, às gargalhadas, chacotearam a cara de bobo que Aparício fez na hora em que a menina se declarou pra ele.
 
Para elas estava provado que os homens, apesar de arrotar prepotência e superioridade, tremem nas bases e – pior – se submetem às mulheres. Basta a elas usarem o que têm de melhor: Inteligência, sensibilidade e, no caso, uma dose de crueldade e desprezo pelos sentimentos alheios.
criado por André Marcon    14:03 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , ,

18/10/08

DUAS MULHERES

Tadeu conheceu Bianca no colégio. Pouco tempo depois, começaram a namorar.
 
No começo, tudo parecia bem. Casal jovem, bonito, cheio de vida e esperanças pro futuro. Ele, de porte atlético e aplicação nos estudos, gentil, educado e filho de boa família. Ela, delicada, porém, sem afetação, de personalidade forte e força de vontade a toda prova, filha caçula de uma família humilde, mas batalhadora.
 
Depois de alguns meses, veio a notícia: Bianca estava grávida de Tadeu.
 
A revelação causou uma tremenda mudança no comportamento de Tadeu. Antes calmo e seguro de si e possuindo um forte senso de justiça, de repente se tornou ao mesmo tempo temeroso, desesperado e violento.
 
Segurando Bianca pelos braços a ponto de machucá-la, ele falou com ódio:
 
— Você vai tirar essa criança!
 
Surpresa com tal atitude por parte do namorado, Bianca respondeu, pálida de susto:
 
— Você ficou louco, Tadeu? É o seu filho! O nosso filho! Como pode dizer essa barbaridade?
 
Mais irritado ainda, Tadeu retrucou:
 
— Não interessa! Filho tem que ser planejado! Tem hora certa pra ser feito. E o que aconteceu conosco foi acidente! Isso não é nosso filho, foi apenas um acidente!
 
Bianca ficou pasma com as palavras de Tadeu. Este continuou a falar:
 
— Eu sou jovem ainda! Tenho que estudar, me formar, começar uma carreira! Tenho objetivos a cumprir antes de pensar em filho e família! Pense em você também! Você está na mesma situação que eu! É jovem e tem muito que fazer! E com filho no colo, tudo isso se torna impossível! Por isso, trate de procurar um meio de se livrar desse acidente! Aproveite que ainda está nas primeiras semanas!
 
Bianca reconheceu que, em parte, Tadeu tinha razão. Um filho a essa altura seria muito inoportuno para quem ainda é jovem e tem sonhos a se realizar. Mas mesmo assim não justificava a idéia de abortar a criança.
 
Bianca relutou quanto pôde às investidas de Tadeu. Este, furioso, se limitou a dizer:
 
— Pois bem, se quer ter essa criança, que tenha! Mas eu aviso que, sendo assim, estou fora! Acabou nosso namoro! E nunca mais venha me procurar, pois não tenho mais nada a ver com isso! Adeus!
 
Dito isso, Tadeu foi embora, deixando Bianca sozinha com seu infortúnio.
 
Os meses se passaram e Bianca enfrentou uma gravidez cheia de complicações em sua maior parte devido ao trauma por que passou por ser rejeitada por aquele que considerava como o homem de sua vida e que também era o pai de seu filho e também devido à discriminação que sofria por parte de alguns familiares e aqueles que consideravam suas amigas e haviam a abandonado depois que souberam do ocorrido. Bianca deixara a escola e nunca mais soube de Tadeu que, segundo uma das poucas amigas que não tinham lhe virado a cara, também deixara a escola.
 
Enfim, depois de muita angústia, a criança nasceu. Apesar das dificuldades, era uma linda e saudável menina, sem qualquer traço das dores sofridas pela mãe durante sua gestação. Parecia que ela já havia nascido imune a todas as agruras da vida, pois se mostrava alheia ao vale de lágrimas à sua volta.
 
Bianca decidiu que a menina se chamaria Vitória, pois não foram poucas as vezes que ela pensou que sua angústia causaria mal ao bebê e o mataria. Isso senão ela mesma morresse de desgosto antes disso.
 
A serenidade e vitalidade de Vitória preencheram o imenso vazio que se tornara a vida de Bianca. Tendo recobrado o ânimo, ela decidiu batalhar um emprego e concluir os estudos. Ela estava decidida a dar tudo de si para que nada faltasse a sua querida filha.
 
Mas Bianca pensou melhor e decidiu que deveria procurar Tadeu e exigir-lhe pensão para a filha. Afinal, o emprego poderia demorar a surgir e ele também tinha responsabilidade sobre a criança. Bianca não poderia aceitar arcar sozinha com as conseqüências.
 
Por isso, Bianca procurou saber sobre o paradeiro de Tadeu e descobriu onde estudava. Após se informar sobre os horários da escola, Bianca foi até lá e surpreendeu Tadeu no portão do colégio. Bianca carregava Vitória no colo e foi logo interpelando Tadeu:
 
— Olha aqui o que você quis que eu jogasse fora como se fosse lixo. Olhe bem nos olhos dessa criança e repita o que me disse aquele dia, se tiver coragem. Cachorro, canalha!
 
Tadeu sentiu o chão fugir-lhe aos pés e a vista escurecer. Só não caiu de quatro porque um amigo que estava ao lado o amparou a tempo. Recobrando os sentidos, Tadeu olhou para a ex-namorada e a criança em seu colo e balbuciou:
 
     — Não pode ser…
 
Mas foi. Bianca passou o maior sermão da vida de Tadeu e todos os alunos que estavam passando por ali pararam e formaram uma roda para ouvir o que Bianca tinha a dizer. Todos ficaram horrorizados quando souberam o que Tadeu fizera a Bianca e tomaram partido da menina. Tadeu, acuado, só pôde ouvir quieto o sermão e os gritos de reprovação por parte da “platéia” ali presente.
 
O tumulto só acalmou quando Tadeu se comprometeu a assumir sua responsabilidade como pai da criança e prover-lhe o que fosse necessário para a criação da mesma. A platéia aplaudiu e assobiou em êxtase e a turba foi se dispersando. Quando Tadeu e Bianca ficaram a sós, Tadeu disse:
 
— Eu sinto muito por tudo o que causei a você. Vamos para casa. Quero mostrar aos meus pais a linda netinha que eles ganharam.
 
Bianca saiu dali vitoriosa. Apesar da raiva que sentia por Tadeu ter-lhe rejeitado, ela ainda o amava e agora tinha esperança de voltar a ficar com ele e, assim, formar uma família completa.
 
Chegando à casa de Tadeu, Bianca estranhou uma coisa: o local estava deserto. Tadeu, trancando a porta atrás de si e disse:
 
— Acho que meus pais ainda não chegaram. Vamos esperar na sala. Mas antes me deixe pegar minha filha no colo. Como ela é linda!
 
Bianca entregou a criança a Tadeu e este a tomou no colo com a mesma ternura que cativara Bianca no começo do namoro. O amor que Bianca sentia por Tadeu veio à tona e a fez pensar que tudo daria certo dali em diante.
 
Porém, a face de Tadeu mudou de expressão e agora revelava um olhar maligno. Enrijecendo os músculos do braço, Tadeu pegou a cabecinha com as duas mãos e, num rápido movimento, destroncou o pescoço da criança com se destronca um frango. Vitória soltou um soluço e morreu na hora. Tadeu joga o corpinho de Vitória no chão como se descarta um papel de bala. Bianca fica pálida e muda com a cena atroz que presencia.
 
Depois Bianca desaba no chão a olhar, muda, para o corpo inerte de sua querida filha. Nisso Tadeu diz, com toda calma do mundo:
 
— Você achou mesmo que eu simplesmente aceitaria tudo isso, ainda mais agora com o vestibular chegando e meus planos estão indo de vento em popa? Tudo o que menos preciso agora é de mulher e filho me enchendo o saco. Além do mais, arrumei uma garota muito melhor e mais condizente com meu status do que você.
 
Dito isso, uma sirene de viatura policial soou em frente a casa. Policiais bateram com violência à porta e Tadeu, novamente transformando sua expressão facial, transpareceu dor e angústia. Ao abrir a porta, gritou:
 
— Guardas, prendam essa mulher! Ela matou a própria filho alegando ser minha após querer me chantagear e arrancar dinheiro de minha família! Ela é uma criminosa! Olhem o corpo da criança estirado no chão! Vejam como essa mulher está completamente fora de si!
 
Bianca estava em estado letárgico e só tinha olhos para o corpinho morto da filha. Por isso não ofereceu resistência ao ser detida e presa em um presídio feminino após um rápido julgamento.
 
Alguns dias depois, à noite, na cela onde Bianca estava uma mão portando um revólver com silenciador surge entre as grades e um disparo certeiro mata Bianca em seu leito duro e frio.
 
No corredor do presídio, o autor do disparo caminha calmamente rumo à saída.
criado por André Marcon    20:26 — Arquivado em: CRÔNICAS — Tags:, , , ,

DUAS MULHERES Parte 1

 

     Tadeu conheceu Bianca no colégio. Pouco tempo depois, começaram a namorar.

     No começo, tudo parecia bem. Casal jovem, bonito, cheio de vida e esperanças pro futuro. Ele, de porte atlético e aplicação nos estudos, gentil, educado e filho de boa família. Ela, delicada, porém, sem afetação, de personalidade forte e força de vontade a toda prova, filha caçula de uma família humilde, mas batalhadora.

     Depois de alguns meses, veio a notícia: Bianca estava grávida de Tadeu.

     A revelação causou uma tremenda mudança no comportamento de Tadeu. Antes calmo e seguro de si e possuindo um forte senso de justiça, de repente se tornou ao mesmo tempo temeroso, desesperado e violento.

     Segurando Bianca pelos braços a ponto de machucá-la, ele falou com ódio:

     — Você vai tirar essa criança!

     Surpresa com tal atitude por parte do namorado, Bianca respondeu, pálida de susto:

     — Você ficou louco, Tadeu? É o seu filho! O nosso filho! Como pode dizer essa barbaridade?

     Mais irritado ainda, Tadeu retrucou:

     — Não interessa! Filho tem que ser planejado! Tem hora certa pra ser feito. E o que aconteceu conosco foi acidente! Isso não é nosso filho, foi apenas um acidente!

     Bianca ficou pasma com as palavras de Tadeu. Este continuou a falar:

     — Eu sou jovem ainda! Tenho que estudar, me formar, começar uma carreira! Tenho objetivos a cumprir antes de pensar em filho e família! Pense em você também! Você está na mesma situação que eu! É jovem e tem muito que fazer! E com filho no colo, tudo isso se torna impossível! Por isso, trate de procurar um meio de se livrar desse acidente! Aproveite que ainda está nas primeiras semanas!

     Bianca reconheceu que, em parte, Tadeu tinha razão. Um filho a essa altura seria muito inoportuno para quem ainda é jovem e tem sonhos a se realizar. Mas mesmo assim não justificava a idéia de abortar a criança.

     Bianca relutou quanto pôde às investidas de Tadeu. Este, furioso, se limitou a dizer:

     — Pois bem, se quer ter essa criança, que tenha! Mas eu aviso que, sendo assim, estou fora! Acabou nosso namoro! E nunca mais venha me procurar, pois não tenho mais nada a ver com isso! Adeus!

     Dito isso, Tadeu foi embora, deixando Bianca sozinha com seu infortúnio.

     Os meses se passaram e Bianca enfrentou uma gravidez cheia de complicações em sua maior parte devido ao trauma por que passou por ser rejeitada por aquele que considerava como o homem de sua vida e que também era o pai de seu filho e também devido à discriminação que sofria por parte de alguns familiares e aqueles que consideravam suas amigas e haviam a abandonado depois que souberam do ocorrido. Bianca deixara a escola e nunca mais soube de Tadeu que, segundo uma das poucas amigas que não tinham lhe virado a cara, também deixara a escola.

     Enfim, depois de muita angústia, a criança nasceu. Apesar das dificuldades, era uma linda e saudável menina, sem qualquer traço das dores sofridas pela mãe durante sua gestação. Parecia que ela já havia nascido imune a todas as agruras da vida, pois se mostrava alheia ao vale de lágrimas à sua volta.

     Bianca decidiu que a menina se chamaria Vitória, pois não foram poucas as vezes que ela pensou que sua angústia causaria mal ao bebê e o mataria. Isso senão ela mesma morresse de desgosto antes disso.

     A serenidade e vitalidade de Vitória preencheram o imenso vazio que se tornara a vida de Bianca. Tendo recobrado o ânimo, ela decidiu batalhar um emprego e concluir os estudos. Ela estava decidida a dar tudo de si para que nada faltasse a sua querida filha.

     Mas Bianca pensou melhor e decidiu que deveria procurar Tadeu e exigir-lhe pensão para a filha. Afinal, o emprego poderia demorar a surgir e ele também tinha responsabilidade sobre a criança. Bianca não poderia aceitar arcar sozinha com as conseqüências.

     Por isso, Bianca procurou saber sobre o paradeiro de Tadeu e descobriu onde estudava. Após se informar sobre os horários da escola, Bianca foi até lá e surpreendeu Tadeu no portão do colégio. Bianca carregava Vitória no colo e foi logo interpelando Tadeu:

     — Olha aqui o que você quis que eu jogasse fora como se fosse lixo. Olhe bem nos olhos dessa criança e repita o que me disse aquele dia, se tiver coragem. Cachorro, canalha!

     Tadeu sentiu o chão fugir-lhe aos pés e a vista escurecer. Só não caiu de quatro porque um amigo que estava ao lado o amparou a tempo. Recobrando os sentidos, Tadeu olhou para a ex-namorada e a criança em seu colo e balbuciou:

     — Não pode ser…

(Continua)

Leia a conclusão desta crônica AQUI.

criado por André Marcon    20:26 — Arquivado em: CRÔNICAS
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