29/8/08
O CACHORRO E O VASO

Numa casa qualquer da cidade, na sala encontra-se um cão ao lado de um vaso quebrado.
O cão, por instinto, sabe que fez algo errado e por isso aguarda a punição de seus donos.
Porém, ninguém acudiu ao barulho de cerâmica quebrando.
Ninguém veio verificar o que aconteceu.
O cão, mascote daquela família desde filhote, estava acostumado aos castigos por peraltices consumadas e por isso aguardava fielmente o castigo pelo vaso quebrado.
Porém, pela primeira vez, ninguém apareceu.
Estranhando o fato, o cão sai de seu posto e começa a farejar o ar, o chão e os móveis.
Ele procura na cozinha, procura no banheiro, procura nos quartos, mas, nada dos donos aparecerem.
Creio que não contei quem são os donos do cão arteiro. Trata-se de uma família composta por pai, mãe e um filho de dez anos. Gente humilde porém esforçada que superou os obstáculos da vida e atingiram um patamar de segurança e estabilidade chamada “classe média”.
E são essas pessoas que o cão procura com seu faro neste instante.
Você me pergunta: se o cão sabe que vai ser castigado por quebrar o vaso, por que ele não se esconde, ao invés de procurar os donos?
Ora, porque os donos do cão nunca o castigaram gratuitamente e nem de maneira cruel, mas apenas com castigos psicológicos como deixar o cão se uma refeição ou impedindo que ele entrasse em casa por algum tempo ou ainda prendendo-o na coleira. Fora isso, os donos o tratavam com dignidade e carinho.
Dentre os donos, o cão gosta mais do “dono pequeno”, como ele chama o filho de dez anos do casal. O cão tem-no como preferido por ser o dono que mais passa o tempo com ele e brinca e corria do jeito que o cão gosta. Afinal, os cães têm porte físico propício a exercícios, ao contrário dos gatos, preguiçosos e dorminhocos.
Mas isso não quer dizer que o cão pretere os “donos grandes”: são eles quem fornece seu alimento, sua higiene e seus cuidados médicos, embora o cão não goste de ir ao médico.
Agora, nem os donos grandes e nem o dono pequeno se encontram na casa. O cão já procurou por tudo, nas nada de aparecer dono. Isso deixa o cão ressabiado e triste. Ele não gosta de ficar sozinho.
Quando o cão se dirige à porta de saída da casa, um odor chega ao seu focinho, alertando-o.
É um odor estranho, desses que não sente com freqüência, embora já houvesse sentido antes. Como é o nome disso, mesmo? Sangue! Isso mesmo. O cão já sentira esse cheiro quando seu dono pequeno se machucou durante as brincadeiras e o cão cheirou e até lambeu a ferida, repudiando o gosto daquilo, mas guardando essas características na memória. Agora ele sente o mesmo odor daquele dia, porém, mais forte.
Ele afina o faro para descobrir de onde vem o cheiro. Por um momento ele perde a pista, mas encontra-a novamente quando se dirige à garagem. A medida que ele se aproxima da entrada da garagem, mais forte fica o cheiro. Ao entrar na garagem, o cão nota a presença de alguém caído no chão. Ele se aproxima e fareja o corpo. É seu dono pequeno que está lá, estirado, inerte e sem responder aos latidos do cão.
Os latidos despertaram a atenção do vizinho, que foi o que aconteceu. Chegando lá, ele encontrou o menino morto no chão da garagem e, olhando dentro do veículo estacionado, encontrou o casal igualmente morto no interior do carro. Imediatamente o vizinho sacou seu celular e chamou a polícia e uma ambulância, embora soubesse que não se podia fazer mais nada.
O cachorro late freneticamente. O que houve com seus donos? Por que não respondem como antigamente? Por que não se mexem? Será que não eles irão mais se mexer? Esses pensamentos deixaram o cão com um terrível sentimento de solidão. Pela primeira vez sentiu isso e não soube como reagir.
Enquanto isso, a polícia e a ambulância chegam. Vários homens esquisitos entram na casa sem cerimônia alguma e fuçam por tudo, fazendo muitas perguntas ao vizinho que os chamou. Uns homens de branco pegam os donos do cão e os colocam num carro igualmente branco e os levam embora. O cão sente vontade de ir atrás, mas desiste. O carro é muito rápido. Os homens esquisitos também vão embora logo em seguida.
O vizinho, amavelmente, pega o cão no colo e o leva para casa, para cuidar dele enquanto os familiares da família assassinada não vêm. Sem reação, o cão apenas deixa-se levar. Afinal, naquele dia, ele descobriu que o vaso que quebrou numa de suas peraltices não era o pior que poderia acontecer.
O cão descobriu que podia se quebrar os donos que tanto amou e que, tragicamente, ao contrário do vaso quebrado, não tinha como remediar ou comprar outros novos, de mesma aparência e qualidade.
Eles eram únicos.
criado por André Marcon
20:28 — Arquivado em: 









