28/6/08
AMÂNCIO E AMANDA

O dia amanhece e, em uma pequena casa na zona sul da cidade, o Amâncio desperta com o som do chuveiro. A sonolência, porém, o impede de se levantar de imediato.
Na cama desarrumada, Amâncio sente do cheiro da pessoa que agora toma banho. O lado onde essa pessoa dormia ainda guarda um pouco do calor de seu corpo.
O rapaz vira para lado e com a mão procura sentir esse calor e, aproximando o rosto do travesseiro, sentir o perfume da pessoa com quem dividiu aquela cama na noite anterior.
Amâncio permaneceria mais algum tempo assim se naquele instante o som do chuveiro não cessasse e da porta ao lado não surgisse a dona do corpo que aquecera a cama e o coração de Amâncio — Amanda.
Uma toalha cor de pele cobre o corpo da bela morena, salientando suas curvas. Outra toalha enrolada em sua cabeça esconde os longos cabelos encaracolados. A aura de pureza de quem tinha dissipado toda mácula física e espiritual naquele singelo banho emanada pela moça é emoldurada pelos raios de sol que penetram no quarto através da cortina e tornam este conjunto como uma pintura impressionista, quiçá uma visão onírica que pertence não a este mundo, mas, talvez, a um mundo além do nosso. Além da matéria, quem sabe.
Mas a imagem que Amâncio agora, totalmente desperto, contempla, é real. Diante dele está a pessoa que ele descobriu, desde muito tempo atrás, que era a mulher da vida dele.
Muitos obstáculos eles tiveram que enfrentar para que enfim pudessem viver juntos.
A reprovação por parte da família, os olhares de desprezo dos amigos, conhecidos e parentes voltados para eles. O preconceito, enfim, que não permitia que duas pessoas que pareciam ter nascido para se encontrar e viver juntas para sempre, fez de tudo para que o jovem casal se separasse e seu amor morresse.
Talvez isso tivesse acontecido se o sentimento que movia o casal não fosse mais forte do que tudo. Talvez hoje cada um estivesse trilhando caminhos alheios um do outro se a coragem e determinação de seguir aquilo que o coração de cada um acreditava não estivessem à altura dos empecilhos.
Mas o fato é que tanto Amâncio quanto Amanda mostraram possuir vontade de aço e uma coragem de seguir juntos contra tudo e todos que os impedissem de consumar sua união, que o resultado era o que se via neste quarto, neste exato momento.
Um homem e uma mulher completamente apaixonados e dispostos a seguir em frente sem hesitar. Sem temer o futuro que eles têm pela frente.
A morena senta-se na cama ao lado de seu amado. Os dois se beijam ternamente.
Depois ficam ali, como se o tempo nada mais significasse e o mundo se resumisse a eles dois, apenas.
Depois de longo silêncio, ele indaga:
— Amanda, você já parou pra pensar se você gostaria realmente de não ter passado por tudo o que passou para ficar comigo?
Amanda, com a cabeça recostada no peito do rapaz, responde, sem hesitar:
— Pra falar a verdade já. Isso foi bem no começo. Mas, no mesmo momento em que pensei nisto, pensei também que, fora isto, nada mais valeria a pena na minha vida. E o que veio depois só veio confirmar o que pensei. Por isso agora estou aqui com você.
O rapaz sorri e beija a testa de Amanda. Depois diz:
— No meu caso, eu pensei nisso inúmeras vezes, não por arrependimento, mas por preocupação com você. Cheguei a pensar se não seria melhor desistir de tudo e trancar meus sentimentos numa caixa e jogá-la ao mar, para poupá-la de todo sofrimento pelo qual passou.
Agora é Amanda é sorri, beija o rosto de seu amado e diz:
— Se você tivesse feito isso, pode apostar que eu mergulharia no mar e traria a caixa de volta, só para devolver-lhe esse sentimento.
Ele responde:
— É por isso que eu quis ter você e ninguém mais.
O casal torna a se beijar. Com seus corações em brasa, tornam a se enredar nas malhas do amor, mesmo com o Sol já alto lá fora.
E entre afagos e suspiros, ela lhe diz suavemente:
— Eu te amo, Amâncio, meu querido irmão!
Amâncio responde:
— Eu também te amo, minha querida irmãzinha.
Nesse mesmo instante ouve-se um barulho vindo da porta da sala.
Uma mulher tresloucada invade a casa aos berros e, quando adentra o quarto e flagra o casal em pleno ato sexual, saca um revólver calibre 38 e dispara vários tiros contra os Amâncio e Amanda.
Os dois corpos caem no chão com várias perfurações de bala. Alguns minutos depois, estão mortos.
Nisso, a mulher desvairada larga o revólver e sai correndo pela rua, balbuciando coisas incompreensíveis.
Quem topa com a tresloucada tem a impressão de ouvi-la dizer, aos prantos:
— Meus filhos! Meus filhinhos…
criado por André Marcon
20:03 — Arquivado em: 










