30/5/08
MANTENDO AS APARÊNCIAS

Robercleison era pastor de uma seita evangélica de certo renome na cidade onde morava.
Dedicado ao trabalho, ele não poupava esforços para ver sua obra de evangelização frutificar.
Dentro ou fora da igreja, Robercleison era um exemplo de virtude moral e discrição.
Ninguém nunca ouviu sequer um comentário a respeito de algo que manchasse sua reputação junto aos fiéis e à sociedade.
Apesar de sua seita permitir o matrimônio de seus pastores, Robercleison não demonstrava interesse em se casar. Mesmo beirando os 30 anos de idade, nunca ninguém ouviu falar de que ele tinha ou teve algum relacionamento amoroso.
Todos concluíam que ele era casado, mesmo, era com sua missão de evangelizar.
Porém, o que todos nunca notaram e nem o poderiam fazer, era que, bem no fundo do âmago do ser de Robercleison, havia um segrego trancado a sete chaves pelo próprio,
Um segredo que, se revelado, poria a perder sua imagem e a da sua igreja.
Filho de uma família dona de uma fé fervorosa, o caçula de três irmãos teve uma educação rigorosa, baseada nos preceitos religiosos a que todos os membros da família pertenciam há gerações. A mãe cuidou para que todos os filhos fossem exemplos de boa conduta e temor ao deus que cultuavam. O menino Robercleison cresceu num ambiente em que assuntos como sexualidade, por exemplos, eram tratados com extrema severidade por seus educadores seja em casa ou na escola onde estudou.
O problema foi que, desde pequeno, Robercleison se sentia diferente dos demais garotos. Franzino e delicado, o caçula parecia mais uma menina frágil e doce do que o varão que seus pais viam nele, e, quem sabe, poderia se tornar pastor da igreja a qual faziam parte e assim honrar o nome da família.
O menino cresceu e, apesar da educação severa e da consciência de que era pecado, reprovado pelo deus que cultuava e tudo mais, inevitavelmente admitiu o que sua fé e sua educação tanto repudiavam: Robercleison era gay.
Gay a ponto de, escondido, vestir as roupas da mãe, inclusive as peças íntimas, passar maquiagem no rosto e, nos poucos momentos livre das garras da religião e da família, extravasar seu espírito feminino miseravelmente aprisionado num corpo de homem.
Apesar de seus pais apresentarem as filhas de famílias amigas, quem sabe até acordando um futuro matrimônio, Robercleison se limitava a cumprimentá-las sem interesse nenhum. No seu íntimo fervia o desejo por outros meninos e dado a impossibilidade de concretizar seus sonhos, Robercleison guardava a dor dentro de si e sofria calado.
O tempo passou e Robercleison foi servindo à igreja a qual fazia parte até que, finalmente, ele começou sua missão como pregador. Mal sabia ele que seria aquele o palco da realização de seus sonhos mais secretos.
Tudo começou três anos depois, quando um belo rapaz aparentando menos de 20 anos de idade começou a freqüentar os cultos da seita a qual Robercleison pertencia.
Nessa época, Robercleison já era um pastor respeitado e não demorou a notar a presença daquele rapaz louro, de olhos azuis, pele lisa e que emanava uma aura angelical que no primeiro instante causou uma sensação estranha em Robercleison.
Ele se sentiu atraído pelo jovem rapaz. Todo aquele sentimento aprisionado no interior de Robercleison brotou tal como um prisioneiro sacode as correntes que o mantêm cativo, na esperança de se libertar. Apesar de um pouco abalado, Robercleison manteve a linha.
Após o culto, o rapaz se aproximou de Robercleison, se apresentou e disse que era a primeira vez que visitava a igreja e expressou seu interesse em continuar participando dos cultos.
Ainda um pouco abalado pela sensação que o rapaz lhe causara, Robercleison deu as boas vindas ao rapaz e externou seu desejo de que o rapaz voltasse mais vezes, como quisesse.
De fato, o rapaz, que se chamava Alberto, retornou nas semanas seguintes, sempre se sentando na primeira fileira, bem em frente do pedestal onde Robercleison pregava. Essa situação causava ao mesmo tempo constrangimento e alegria em Robercleison, que passou a nutrir uma paixão recolhida por aquele rapaz tão bonito e gentil.
Assim se passaram três meses e, certo dia, após o mais um culto, os fiéis e as outras pessoas envolvidas nos trabalhos se retiraram e somente Robercleison e Alberto permaneceram no local. Àquela altura, eles já mantinham uma amizade cordial e costumavam sair juntos por último, já que Robercleison morava num cômodo anexo à igreja e era responsável por trancar portas e janelas.
Foi daí que Alberto chegou bem próximo de Robercleison e declarou que estava apaixonado por ele.
A revelação caiu como uma bomba sobre Robercleison, que, aturdido, não sabia se deixava sua reputação e seu dever como pastor falar mais alto, ou seu amor proibido e guardado no seu peito.
Antes que Robercleison pudesse responder, Alberto o tomou em seus braços e beijou-lhe lascivamente os lábios. Sem saber mais o que pensar, o pastor apenas se deixou levar pelos seus instintos.
Entre beijos e abraços sôfregos, pastor e fiel caíram no altar e lá mesmo consumaram o ato sexual, que mais parecia um ritual de libertação para ambos os amantes, principalmente para Robercleison, que, enfim, realizava plenamente seus sonhos.
A partir daquele momento, Robercleison e Alberto mantiveram um relacionamento amoroso mais que secreto. Seus encontros eram meticulosamente arranjados, diferente daquele dia, em que o momento e a tensão nem fizeram os dois temerem um flagra em plena igreja. Foi um sufoco, mas, ao mesmo tempo, foi a época mais feliz da vida de Robercleison. Alberto era tudo o que ele poderia desejar de bom na vida.
Só que, como o que é bom dura pouco, depois de um ano veio a notícia: Alberto iria viajar para a Europa a mando da empresa na qual trabalhava e não havia previsão de retorno. Robercleison até cogitou largar a igreja e partir com seu amor, mas, depois, ponderando com calma, concluiu que aquilo seria o mesmo que jogar na lama seu nome e o da sua família. Afinal, o abandono da igreja em si já seria motivo de reprovação. Como o mundo era pequeno, não tardaria para que seu relacionamento com Alberto fosse descoberto e chegasse aos ouvidos da comunidade e aí sim tudo estaria perdido.
Baseado em tudo isso, com imensa dor no coração, Robercleison terminou o relacionamento com Alberto.
Depois que seu amor se foi, Robercleison continuou seu trabalho na igreja esforçando-se para não demonstrar a dor que dilacerava seu ser. Como o tempo cura as feridas, tudo pareceu voltar à velha rotina de antes.
E ninguém desconfiou que naquele mesmo altar onde o “deus da criação” era adorado nascera e fora consumado um amor que sequer poderiam imaginar.
criado por André Marcon
20:24 — Arquivado em: 










