29/2/08
PRA QUE SERVE UM DEUS?

Jéssica era uma menina de seis anos.
Certo dia, após assistir à missa junto de seus pais, chegando em casa, perguntou:
— Papai, pra que precisamos ir naquele casão enorme todo domingo?
O pai, surpreso com a pergunta repentina, precisou de alguns segundos para pensar na resposta. A mãe veio em seu socorro:
— É para visitar o papai do céu, Jéssica.
A menina demonstrou certo ceticismo ante a resposta e perguntou novamente:
— O papai do céu é aquele homem de saia que ficava falando o tempo todo lá na frente?
Os pais da menina não contiveram o riso.
— Não, filha, ele é o padre, um homem que fala em nome do papai do céu — respondeu o pai.
— Então onde estava o papai do céu que eu não vi? — replicou a menina.
— Papai do céu estava em todos os lugares, porém, não pode ser visto; apenas sentido. — interveio a mãe.
— Então papai do céu é um fantasma? — perguntou Jéssica, um tanto assustada com a possibilidade (ela vira um desenho de fantasma na TV e sentira medo).
Nova gargalhada dos pais. Jéssica não entendia o que tinha tanta graça, mas riu também.
— Papai do céu é um ser espiritual, que não possui corpo como a gente, mas que, mesmo assim, pode se sentir sua presença quando se acredita nele. — disse o pai.
— Quem não acredita não sente que o papai do céu está perto dele? — questionou Jéssica.
— Isso. O papai do céu só se aproxima de quem permite que ele se aproxime. — disse a mãe.
— Mas o papai do céu não pode se aproximar de quem não crê nele para que quem não crê passe a crer? — perguntou Jéssica, quase se atrapalhando no raciocínio.
— Poder ele pode, mas nós temos uma coisa chamada “livre-arbítrio”. Essa coisa nos garante o respeito por nossas decisões. Se a pessoa não crê no papai do céu, então o papai do céu respeita a decisão dessa pessoa. Quando o papai do céu vê que essa pessoa começa a se interessar por ele, aí sim ele se faz sentir. — respondeu o pai, em tom professoral.
— Então não acontece nada com que não crê no papai do céu? — perguntou a menina.
— Acontece, sim, mas não nesta vida, mas no Além, depois da morte da pessoa: se até na morte ela não acreditar no papai do céu, a alma dessa pessoa irá para um lugar de calor insuportável chamado Inferno, e lá passará a eternidade sofrendo castigos terríveis! — disse o pai, gesticulando como se fosse um monstro.
— Mas papai do céu não respeita a decisão das pessoas? Por que ele castigaria a pessoa se ele lhe deu liberdade para não acreditar nele? — perguntou Jéssica, assustada com a novidade.
Assustados com o rumo que a conversa estava tomando, os pais de Jéssica desconversaram dizendo que ela era muito criança e que no tempo certo entenderia os “mistérios da fé”.
O tempo passou e Jéssica, conduzida pela mãe, recebeu primeira eucarestia, sacramento do crisma e ia à missa todo domingo, acompanhada dos pais.
Mas, apesar de tudo isso, ainda não compreendia como um deus que dá livre-arbítrio para as pessoas castiguem quem não escolhe o que ele, deus, quer que seja escolhido.
Foi daí que Jéssica, moça feita, se questionou:
— Como pode haver um deus assim tão humanamente mesquinho? Não seria tal deus mero reflexo das paixões humanas?
E foi assim que Jéssica se tornou atéia como tantos outros que um dia pararam para pensar seriamente a respeito.
criado por André Marcon
20:12 — Arquivado em: 










