
Dudu Matarrato era o novo emergente do pedaço. Com uma vultosa herança herdada de um finado tio, não demorou a se destacar no "jet-set" nacional comparecendo às festas mais badaladas, sempre ostentando luxo e riqueza.
Certa feita, Dudu decidiu organizar uma festa de arromba em sua casa de praia na passagem de ano. Seria o "réveillon do século", pensava ele.
Chamou uma grande quantidade de convidados, todos da mesma faixa etária que ele (18-20 anos) e prometeu que aquela noite seria inesquecível.
Convites distribuídos, fornecedores contatados, tudo organizado nos mínimos detalhes. A ansiedade tomou conta dos convidados curiosos para saber o que teria de tão especial naquele réveillon. O entusiasmo crescente do anfitrião também contribuía para essa curiosidade.
Os dias se passaram e finalmente chegara a grande data. Na casa de praia de Dudu Matarrato, a euforia e a descontração davam a tônica da festa. Tudo o que se podia imaginar estava à disposição de todos: um farto buffet, bebidas alcóolicas de todos os tipos jorrando nas taças, e, para surpresa de todos, drogas em quantidades cavalares dispostas em bandejas fartas.
O excesso de bebidas e drogas começou a surtir efeito: todos ficaram alucinados. Uns tiravam toda a roupa e pulavam na piscina; outros cantavam e urravam; casais trepavam à vista de todos, sem nenhum pudor; mulheres subiam nas mesas e faziam strip-teases para o delírio da ala masculina; outros tantos, chapados, ficavam amuados num canto ou estirados nos sofás curtindo a "viagem".
Nessa confusão toda, o anfitrião observava toda aquela loucura com calma e tranqüilidade. Beber apenas um gole de champanhe francês. Parecia que Dudu sentia um raro prazer ao contemplar o templo da perdição em que sua casa de praia havia virado.
Faltando poucos minutos para a meia-noite, Dudu mandou chamar todos os convidados para o grande salão de festas. Com muito custo os empregados reuniram aquela turba alucinada pelo efeito da bebida e das drogas. Uma vez todos reunidos, Dudu iniciou um breve discurso de agradecimento e de exaltação ao ano vindouro. Mesmo não entendendo nada do que escutava, a turma aplaudiu freneticamente.
Sem que percebessem, os empregados de Dudu trancaram as portas e janelas do recinto, confinando todos ali. Terminado o discurso, Dudu anunciou que faltavam apenas 10 segundos para a meia-noite. Sendo assim, todos começaram a tradicional contagem regressiva.
10… 9… 8… 7… 6… 5… 4… 3… 2… 1…
FELIZ ANO NOV…………..
Antes que completassem a frase, atiradores munidos de metralhadoras e pistolas semi-automáticas invadiram o salão e iniciaram uma chacina digna dos filmes de terror. Com um sorriso triunfante nos lábios, Dudu Matarrato sacou sua pistola semi-automática e começou a atirar também.
Desesperados, confusos, grogues, enjoados, tontos, os convidados simplesmente não tiveram chance de escapar. Para eles, aquela cena parecia mais uma "bad trip" de ácido ou apenas um pesadelo daqueles. Os corpos caiam um a um formando um tapete macabro. Alguns convidados tentavam alucinadamente alcançar portas e janelas, mas eram alvejados antes que as alcançasse. Outros se ajoelhavam e pediam piedade desesperadamente, mas não eram poupados.
Após muito tiroteio, berros, bagunça e confusão, não sobrou ninguém vivo entre os convidados para contar a história. O cheiro de pólvora e carne queimada empesteava o lugar. Dudu aspirava aquele odor como se sentisse o cheiro de um bom charuto cubano.
Saindo de seu transe, Dudu expediu ordens para preparar o carro e evacuar a casa rapidamente. Não se preocupou em limpar a cena do crime ou esconder provas. Deixou a casa do jeito que estava: cheia de cadáveres e banhada em sangue. Afinal, a casa nem era dele: alugara-a através de um agente munido de nome e identidade falsos. O resto foi "moleza".
Excitado com a sensação de atirar e matar seres humanos, Dudu queria descarregar a tensão de arquitetar e executar um plano tão audacioso, com todos os temores, ameaças e possibilidades de dar errado e ser pego pela polícia ou algo sair errado durante a execução. O sucesso do plano só fazia Dudu ficar mais e mais tenso e excitado. Num arroubo de audácia, Dudu ordenou que o motorista o levasse a um bordel de luxo. Descarregaria sua tensão enrabando a puta mais cara do lugar.
No bordel, Dudu bebeu whisky e pagpu uma rodada para todos os que estavam ali presentes. Escolheu a dedo a puta mais cara e subiu com ela ao quarto decorado e equipado com tudo do bom e do melhor. Dudu trepou como nunca havia trepado antes. Exaustos, cochilaram alguns instantes. Dudu acordou primeiro, se vestiu e, vendo aquela formosa putinha de luxo estirada na cama toda nua, não teve dúvidas: pegou sua arma ainda carregada e disparou três tiros a queima-roupa. A puta nem teve tempo de acordar: Morreu na hora.
Dudu saiu do quarto como se nada tivesse acontecido e foi embora. O silenciador no cano do revólver não chamou a atenção de ninguém. Quando descobrissem o corpo, Dudu já estaria muito longe.
Chegando em sua casa, Dudu contatou alguns agentes e fez as malas. Decidiu sair do País por algum tempo e curtir uma "férias" em algum paraíso fiscal. Se gostasse de lá, pensou ele, se estabeleceria e daria uma banana para este país de terceiro mundo. "Foda-se este paisinho de merda!", concluiu.
Em seu jatinho particular, Dudu seguiu viagem rumo a alguma ilha paradisíaca pretendendo viver de sombra e água fresca. "E muita puta chupando minha piroca!" completou Dudu em pensamento.
Enquanto Dudu cochilava tranquilamente sonhando com algumas xoxotas, o jatinho mergulhou em uma tempestade elétrica com ventos furiosos golpeando a aeronave. O piloto tentou de tudo para manter a estabilidade do aparelho, mas seus esforços foram em vão. Finalmente, um raio atingiu uma das asas e o jatinho perdeu o controle. Caindo rapidamente, nada restava a fazer. Como um meteoro, a nave espatifou no meio da selva e explodiu.
No noticiário do dia seguinte, três notícias chocaram a população de ressaca do réveillon:
— Carnificina encontrada numa casa de praia: dezenas de corpos metralhados estirados no chão e uma grande quantidade de drogas encontradas no local;
— Prostituta de luxo é assassinada a queima-roupa em bordel de gente muito rica;
— Aeronave particular enfrenta mau tempo, cai no meio da selva e explode: nenhum sobrevivente.
E o ano estava apenas começando…