
José e Maria se conheceram na igreja.
José flertava Maria discretamente. A cada culto, os dois trocavam olhares furtivos entre uma oração e outra.
Finalmente, por intermédio de um amigo em comum, ambos foram apresentados. Sorrisos, gentilezas e alguns percalços depois, começaram a namorar.
Era daqueles namoros ingênuos, embalados por ensinamentos bíblicos de conduta moral que não permitia libertinagens. Enfim, era daqueles namoros de contos de fadas, onde tudo é puro e belo.
O tempo passou e José e Maria tornaram-se noivos, após cinco anos de namoro, os quais José não tocou Maria para mantê-la casta e pura para o matrimônio, que dizia ocorrer em breve, provavelmente em Dezembro.
Foi aí que o inesperado aconteceu faltando poucas semanas para o casamento.
Sentindo enjôos constantes, Maria parecia estar doente. Seus pais, preocupados, levaram-na ao médico, para fazer exames. Foi aí que uma bomba caiu sobre as cabeças daquela família.
Maria estava grávida!
Angustiados e cheios de vergonha, os pais de Maria pegaram a menina pelos braços e arrastaram-na até a casa de José. Bradavam que iriam exigir satisfações imediatas ao noivo, que faltara com o respeito para com Maria e, pior, violara a santa Lei de Deus.
Maria, envergonhada e desesperada, guardava doloroso silêncio.
Chegando à casa de José, a família de Maria reuniu-se à família de José para discutir sobre o ocorrido e decidir o futuro dos filhos.
À medida que o pai furioso de Maria narrava os acontecimentos, os pais de José derramavam lágrimas angustiadas. José escutava estupefato a todas aquelas barbaridades.
Quando o pai de Maria terminou a narrativa, José, com voz firme, disse:
— Eu juro pela minha honra que esse filho que Maria, minha noiva, carrega em seu ventre, não é meu. Conforme a educação que recebi de meus pais e de nossa igreja, cumpri com os preceitos da decência e da moral e respeitei Maria em todos os momentos de nosso namoro desde o primeiro dia em que nos conhecemos.
— Então está insinuando que minha filha é prostituta? Bradou o pai de Maria, furioso.
— Dada as devidas circunstâncias, sim. — Disse José, surpreendendo a todos — Se Maria for mulher de bem confirmará que não faltei com o respeito em momento algum.
Nesse ínterim, Maria permanecia calada, com as mãos cobrindo o rosto rubro de vergonha.
— Isso é um absurdo! Quem mais além de você seria o pai dessa criança? Maria foi criada para ser uma mulher cristã em toda a acepção da palavra. Nunca descuidamos de sua criação e agora vem você insinuar que minha filha é adúltera?!
— Sim, é um absurdo e estou tão pasmo com essa novidade quanto o senhor. De Maria essa era a última coisa que eu poderia esperar. Ainda mais faltando poucos dias para nosso casamento. Só Deus sabe o que passei para manter a pureza e a castidade de minha noiva e eis a recompensa que eu recebo! Grávida antes do casamento. E grávida de outro!
Um silêncio que pareceu durar um século tomou conta daquela sala.
Enfim, Maria, com voz trêmula, disse a José:
— José, meu noivo, lembra que outro José, há muito tempo, teve por noiva uma outra Maria, que engravidou antes que se casassem e ambos passaram pela mesma angústia que passamos agora, mas ambos se uniram e tornaram-se o casal abençoado que criou o nosso Salvador?
Essas palavras surpreenderam todos. José, com lágrimas nos olhos, falou:
— Sim, Maria, eu me lembro. Mas aquela Maria engravidou do Espírito Santo de Deus porque fora predestinada a gerar o Verbo de Deus que naquele momento se faria carne. E sei que José passou pela incerteza de desposar Maria ou não, pois desconfiava que fora traído pela noiva. O anjo do Senhor apresentou-se a ele em sonho e o esclareceu sobre a gravidez de Maria. Assim, José desposou Maria e ambos criaram Jesus como se fosse seu filho legítimo.
A essa altura todos choravam copiosamente. José continuou:
— Mas isso aconteceu há muito e muito tempo atrás e nas Escrituras Sagradas nada consta de que isso voltaria a acontecer. Portanto, diferente daquele José que aceitou aquela Maria grávida antes de coabitarem, eu não poderei aceitar você, pois você não está grávida de nenhum Salvador e tampouco foi concebida sem pecado, como a Maria que gerou Jesus.
Maria, quase desfalecendo, balbuciou:
— Então, você…
José completou:
— Sim. Está tudo acabado entre nós. Você mostrou não ser digna de minha afeição e deve carregar seu fardo por toda a sua vida. E espero que essa terrível experiência sirva como um sinal de Deus para corrigi-la em seus atos e daqui pra frente ser, de fato, serva do Senhor e bênção para os seus. Agora saia da casa de meus pais. Nada mais tenho eu contigo.
Cobertos de vergonha e ignomínia, Maria e seus pais saíram da casa de José, cabisbaixos. Deveriam, daquele dia em diante, pensar no herdeiro que estava por vir e decidir como contornar aquela situação embaraçosa.
Nas ruas, as decorações natalinas e o tradicional presépio na praça da igreja matriz deixavam a cidade mais bonita e alegre, encantando os moradores e os turistas, exceto aquela família desventurada pelo triste destino que a aguardava.
Para aquela família, assim como para a família de José, aquele Natal seria o mais triste de todos.