27/11/07
CORAÇÕES CONECTADOS

Antonio gostava de navegar na internet. Ele tinha muitos amigos no orkut, na sala de bate-papo que freqüentava e no seu messenger.
Certo dia, Antonio conheceu uma garota num bate-papo. Gostou tanto dela que a adicionou em seu messenger e passou a manter contato constante com a nova amiga virtual.
No começo, eram trocas de mensagens eletrônicas ocasionais. A tal garota, aos poucos, foi contraindo cada vez mais intimidade com Antonio e os encontros virtuais passaram, em pouco tempo, a ser constantes. A garota, que se identificava através de um nick name, se abria e contava muitas coisas de sua vida. Chegou um a ponto que Antonio pensou que sabia ais coisas sobre a garota do que os pais da mesma.
Ao mesmo tempo, surgiu em Antonio um sentimento de afeto pela sua nova amiga. Ela era inteligente, descontraída e, ao mesmo tempo, deixava transparecer um certo ar misterioso de quem, mesmo contando tantos segredos pessoais, ainda guarda o maior dos segredos a sete chaves.
O tempo passava e Antonio se sentia cada vez mais atraído pela sua amiga da internet. O sentimento de afeto inicial tornara-se um desejo ardente de conhecer aquela garota pessoalmente e, quem sabe, evoluir para algo mais íntimo.
Certo dia, a amiga de Antonio se apresentou a ele, no messenger, com um nome completo: “Maria Eduarda Golvêia”. No começo Antonio estranhou, pois habituara-se com o nick name de sua amiga. Ele lembrou que, nos primeiros papos com ela, ele perguntara o nome dela e ela respondeu com um enigmático “ME”. Depois disso Antonio não perguntou mais, para não ser inoportuno. Aquela revelação repentina do nome daquela por quem Antonio nutria já um sentimento especial não deixou de lhe causar certa estranheza.
“Oi, Antonio, sou eu” Escreveu Maria Eduarda.
“Estranhei você ter entrado hoje sem seu nick name… Que mudança é essa?” respondeu Antonio, cauteloso.
“É que hoje eu decidi tomar uma iniciativa” Retornou Eduarda.
Depois disso Maria Eduarda convidou Antonio para um encontro pessoal. Como ambos moravam na mesma cidade, mas mantendo certo sigilo, ela expressou o desejo de se encontrar com o amigo. Antonio, mais aliviado, se interessou pela idéia, uma vez que julgara conhecer bem, exceto certos detalhes, da vida de sua amiga virtual e, por outro lado, também queria se encontrar com ela.
“Onde poderíamos nos encontrar?” perguntou Antonio.
“Aqui na minha casa” foi a resposta.
“Na sua casa? Pensei que quisesse me encontrar em algum ponto do centro da cidade…” escreveu Antonio, agora um pouco surpreso.
Essa desconfiança de Antonio era natural, sabendo que não era prudente chamar um conhecido de internet do qual não se sabe quem realmente é. Porém, Maria Eduarda insistiu tanto que convenceu, mas não muito, Antonio.
Maria Eduarda forneceu o endereço completo de sua casa e os dois combinaram dia e horário para o encontro.
Chegando o dia combinado, Antonio se dirigiu para a casa de Maria Eduarda. Quando chegou à rua em que sua amiga morava, buscando pelo número da casa do qual estava escrito no pedaço de papel em que anotara o endereço, Antonio estacionou seu carro em frente a casa que procurava.
Era uma casa modesta, sem muito luxo porém muito bem apresentável. Antonio tocou a campainha. Depois de alguns segundos, uma senhora aparentando ter mais idade do que realmente tinha atendeu à porta: “O que o senhor deseja?”
Um pouco embaraçado, Antonio pensou ser aquela senhora a mãe da qual Maria Eduarda tanto lhe falara no messenger.
“Eu sou amigo de uma moça chamada Maria Eduarda e vim visitá-la. Ela mora aqui?”
As palavras de Antonio pareceu causar uma profunda impressão naquela senhora. “Você diz ser amigo de minha filha Maria Eduarda?” disse ela, com voz embargada.
“Sim, nós nos conhecemos através da internet há uns oito meses e, por fim, marcamos um encontro. Foi sua filha quem combinou de encontrarmo-nos aqui.”
“Minha filha?!” repetiu a pobre senhora, agora com lágrimas nos olhos.
“Sim. Aconteceu alguma coisa, senhora?” confirmou Antonio, surpreso.
“Queira entrar, meu senhor” disse a mãe de Maria Eduarda.
Antonio entrou na casa e sentiu uma atmosfera lúgubre no ambiente. Tudo exalava tristeza e parecia que aquela senhora morava sozinha e reclusa já há um bom tempo. A mãe de Maria Eduarda, que se apresentou como sendo Leocádia Guimarães Golvêia, perguntou como Antonio tinha conhecido sua filha. Antonio contou com mais detalhes o início de sua amizade até aquele dia. Leocádia se impressionava com cada detalhe proferido por Antonio. Por sua vez, Leocádia contou que enviuvara quando sua filha ainda tinha três anos de idade e, com muito custo, criara a filha da melhor maneira possível, graças em parte pela pequena herança deixada pelo defunto, em parte pelos pequenos trabalhos domésticos feitos por ela, e, posteriormente, pela alegria e força de vontade de Maria Eduarda, que, ainda criança, fez de tudo para ajudar a pobre mãe viúva.
Por fim, Leocádia pegou um retrato de sua filha e o mostrou para Antonio. Este confirmou dizendo que, de fato, Maria Eduarda se apresentou com aquela foto no messenger no dia em que marcaram o encontro. Leocádia caiu em prantos. Antonio, desconcertado, quis saber o que acontecera com Maria Eduarda.
A pobre senhora, entre lágrimas, revelou o motivo de sua angústia: “Minha filha, Maria Eduarda Golvêia, aquela que o senhor diz ter conhecido, morreu em meus braços há exatos 20 anos!”.
A notícia caiu como que uma bomba sobre Antonio. Com quem ele teria conversado e travado tanta intimidade por todos aqueles meses? Quem era aquela que lhe confidenciara segredos que, agora, confirmados com aquela senhora, somente poderiam ser de conhecimento particular e de ninguém mais? Seria uma brincadeira de mau gosto? Mas, quem o faria e com tantos detalhes meticulosamente encaixados para formar uma história de vida como aquela? Será que, de fato, ele conversara com uma morta? Será que realmente tinha morrido? Mas a mãe confirmara que sim! Antonio não sabia mais no que pensar. Ele se despediu da mãe de Maria Eduarda e pediu mil desculpas pelo incômodo.
Saindo daquela casa, Antonio entrou no carro e saiu daquela rua como se estivesse hipnotizado por alguma força misteriosa. Seu corpo guiava o veículo, mas sua mente vagava por lugares distantes, sombrios. Depois de muito dirigir, quando Antonio voltou a si constatou, assustado, que parara bem diante do cemitério da cidade. Ele desceu do carro e adentrou o recinto, postando-se diante dos milhares de túmulos daquele cemitério, que, àquela hora, encontrava-se deserto.
Antonio caminhou por entre os túmulos, observando cada um sem prestar muita atenção, até que determinado jazigo despertou-lhe do torpor: a lápide exibia a imagem de uma bela jovem dos seus vinte anos de idade que lhe era familiar e, ao lado, o nome que fez com que Antonio desfalecesse.
Era o nome de MARIA EDUARDA GOLVÊIA.
criado por André Marcon
20:23 — Arquivado em: 








