31/10/07
A CASA MISTERIOSA Parte 04

CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO ANTERIOR
Juca, Ricardo, Luiz, Bruno e Lucas estavam encurralados no segundo andar da misteriosa casa localizada no bairro onde moravam. No andar térreo, uma movimentação estranha ocorria, e isso amedrontava os garotos. Eram monstros que habitavam os contos de terror que se aglomeravam no salão da casa e, após ouvirem ruídos no andar de cima, estavam subindo as escadarias para ver o que era.
Paralisados de medo, os meninos não conseguiam esboçar nenhum movimento. Eles apenas viam luzes iluminarem os degraus da escada e vultos assustadores se aproximando. Juca, que conhecia a história dos monstros de cor, sabia que eles não permitiriam que estranhos entrassem em contato direto com os seres das trevas e saísse de lá vivo para contar o que viram. O fim estava próximo, pensou Juca.
Para Bruno e Lucas, os mais novinhos, aquilo parecia imagem de sonho, onde tudo é irreal e nevoento. Com olhar vidrado, viam aquelas luzes se aproximando, torcendo para que o sonho, que na verdade parecia um pesadelo, se dissipasse e eles acordassem em suas camas confortáveis aliviados por tudo aquilo ter se acabado.
Ricardo via tudo aquilo a princípio com terror, mas, à medida que o perigo eminente crescia, uma serenidade mórbida invadiu o seu ser. Se fosse pra morrer ali, morreria corajosamente, sem chorar. “Tenho que ser corajoso e morrer como homem”, pensou, e permaneceu imóvel onde estava com uma expressão tranqüila em seu semblante.
Em compensação, Luiz, o medroso, aquela altura estava quase desfalecendo de medo. Paralisado como uma estátua, apenas observava com seus olhos arregalados com os globos oculares quase saltando pra fora o objeto de seus maiores temores se aproximando para dar cabo aos bisbilhoteiros que haviam ousado invadir seu território. O suor escorria testa abaixo e as pernas tremiam como vara verde. Seus pés pareciam como que enraizados no chão. Medo, medo, medo…
Finalmente, o clarão feriu os olhos dos cinco meninos. Tudo ficou branco como se o mundo em volta tivesse sumido. Gritos de pavor ecoaram pela casa.
— O que foi isso, Juca?!
— Monstros! Monstros por toda parte! Querem nos matar!
— Calma, moleque! Que maluquice é essa agora? Esse menino…
Empapado de suor, Juca olhou em volta confuso por constatar que estava em seu quarto. Ao seu lado, sua mãe olhando para ele com a expressão tranqüila que só as mães sabem fazer para acalmar os filhos.
— Cadê os monstros? Como foi que cheguei aqui em casa? — perguntou Juca, suspirando de alívio.
— Não tem monstro nenhum. Você sonhou, só isso. Deve ter brincado tanto ontem que foi se deitar cedo e acordou só agora, aos berros. — disse a mãe, agora rindo da cara de incredulidade do filho. Parecia que ele realmente estava convencido de ter visto monstros…
Ante essa resposta, Juca não falou mais nada. Levantou-se da cama, foi ao banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes. O cheiro de café vindo da cozinha acusava a hora da refeição matinal. “Foi tudo um sonho”, convenceu-se, agora mais tranqüilo.
Após o café da manhã, Juca foi se encontrar com seus amigos. Estava ansioso para contar o sonho que tivera e quão ele fora real. Dirigindo-se até o parquinho que havia lá perto, logo adiante avistou a casa misteriosa solitária na colina. Ela continuava a mesma: sombria, triste, melancólica. “Não quero nem pensar em entrar lá” pensou o moleque, “não depois deste sonho”.
Como Juca imaginara, seus amiguinhos estavam todos no parque, brincando. Juca juntou-se ao grupo e contou o sonho que tivera. Todos ouviram o relato do amigo com incredulidade. “Que maluquice”, disseram todos. Sim. Era uma loucura total. Coisa de desenho animado da TV. Nada daquilo poderia ser real.
Alguém lembrou que naquela semana ocorreria o Halloween, o Dia das Bruxas, evento tradicional nos EUA. Luiz disse aos demais que nesse dia as crianças daquele país saíam fantasiadas de bruxas, fantasmas ou qualquer outra assombração e pediam doces nas casas da vizinhança. Sabendo disso, Bruno e Lucas lamentaram não ter essas coisas no Brasil, exceto em eventos isolados realizados principalmente por escolas de idiomas ou clubes fechados. Os dois pequeninos eram loucos por doces.
Após alguns instantes de silêncio, Ricardo levantou-se, sacudiu a poeira da bunda e falou:
— Bem, não temos doces de Dia das Bruxas, mas temos nossa bola. Vamos jogar, cambada!
Todos gritaram e levantaram-se rapidamente para começar mais um dia de brincadeiras. Era sábado e não havia aula. Ou seja, tinham um dia todo de diversões pela frente.
E o sonho da casa misteriosa sumira da mente dos jovens aventureiros rapidamente. Estavam ocupados demais correndo atrás de uma bola para se importar com isso…
FIM
criado por André Marcon
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