31/8/07
UM EMO APAIXONADO

Douglas era o que hoje em dia chama-se "emo".
Deixava a franja caída nos olhos, tinha os cabelos pintados de verde, usava roupas escuras, braceletes de tachinhas, cintos quadriculados e tênis "allstar", além de passar lápis preto nos olhos.
Duglas ouvia bandas "emocore" e arriscava uns poeminhas sempre soturnos e taciturnos.
No orkut, Douglas escrevia "XemPre aXim pR Us MiGuxiNhuS e MiGuxiNhaS", compartilhando com eles suas "emices".
Um dia, Douglas se apaixonou por uma menina, também "emo".
Ela era magra, tinha os cabelos pintados de pink e franja caída nos olhos. Sua pele era pálida e tinha vários piercings espalhados no corpo.
Douglas, com sua introspecção que lhe era peculiar, não arriscou uma aproximação. Preferiu cultivar um verdadeiro amor platônico pela menina.
A partir daquele momento, Douglas passou a escrever poemas sobre seu amor, sua solidão e a dor de não poder se declarar à sua amada.
O tempo passou e a dor se transformou em angústia e aflição. Chegou o momento em que Douglas não suportou aquela situação e decidiu enfrentar sua timidez e se declarar de uma vez.
Através de uma amiga em comum, Douglas conseguiu arranjar um encontro com a menina de seus sonhos. Douglas comprou um buquê de rosas, pensando que seria romântico mostrar-se cavalheiro logo no primeiro encontro. Pensou que causaria uma boa impressão.
Finalmente chegou o grande dia em que Douglas se encontrou com sua amada no local indicado e na hora exata.
Muito nervoso, da melhor maneira que pôde, Douglas disse tudo o que queria dizer sobre seu amor para a menina. Depois de se declarar, entregou-lhe o lindo buquê de rosas.
A menina, impassível, pegou o buquê e jogou-o no chão, espalhando lindas rosas vermelhas pelo chão. Depois ela virou-se e começou a caminhar, indo embora sem dizer palavra alguma.
Em estado de choque, tanto pela tensão do momento quanto pelo desfecho daquele encontro, Douglas, imóvel, verteu lágrimas de dor. Recolhendo as rosas que ofertara com tanto amor, jogou tudo no lixo e foi embora, com o coração partido.
No trajeto de casa, começou a chover, como se os céus chorassem pela sua dor. Os pingos de chuva misturavam-se com as lágrimas e diluíam a maquilagem negra dos olhos, formando dois traços negros nas bochechas do pobre rapaz. Ficou parecendo até que Douglas estava pintado para alguma guerra.
Mas Douglas sabia que aquela guerra já estava perdida, e só restava a ele voltar para casa e sofrer, sofrer e sofrer até não poder mais. E, em sua profunda tristeza, poderia até pensar em cortar os pulsos, encerrando assim de maneira perfeita sua trágica história de amor, como nas músicas que ouvia e nos poemas que ele lia ou escrevia.
Mas Douglas não fez nada disso. Era covarde e medroso demais para pôr em prática tal plano. O jovem emo, no alto de seus 15 anos, sabia que era jovem demais para encarar os olhos lilases da morte.
Por isso decidiu apenas pôr no papel em forma de versos sua história de amor, no melhor estilo emo, com muita lamúria e sofrimento.
Um estilo de poesia que, sabe-se lá porque, os emos tanto amam…
criado por André Marcon
20:10 — Arquivado em: 










