31/5/07
AS CORES DO SONHO
Dobrando uma "esquina", ele se enfiou numa fresta que separava dois barracos. Os capangas dos traficantes passaram reto. Parecia que o perigo havia acabado. De repente, dois braços volumosos agarraram o rapaz e puxou-o para a escuridão de umdos barracos. O rapaz sentiu o chão fugir-lhe aos pés e tudo rodopiar cada vez mais rápido. Depois tudo escureceu e ele não ouviu mais nada.
Depois de um tempo que para ele parecia ser uma eternidade, o rapaz começou a ouvir sons distorcidos. Esses sons penetraram-lhe no cérebro, fazendo-o despertar. O que ele viu em torno de si parecia o cenário de um sonho: o céu era violeta, a grama, verde-limão fosforescente, as montanhas, alaranjadas e os seres vivos, que esquisitos: tinha uma galinha com pêlos de lobo, uma vaca com asas e rabo de pavão, um cavalo ostentando uma bela plumagem de águia, gatos multicoloridos perseguindo ratos voadores que tinham asas e cores de abelha! Tudo isso emoldurado por um sol que explodia em todas as tonalidades , alternando cores frias e quentes.
Caminhando pelas ruas do que parecia ser uma cidade interiorana, o rapaz vislumbrou pessoas das cores mais improváveis e as aparências mais estranhas: cabelos, barbas, olhos, peles, tudo parecia ter saído de um imenso arco-íris. Era como se a Terra tivesse se transformado em uma paleta. Ruas, casas, postes, carros, motos… Tudo coberto com um leque de cores e tons berrantes.
O rapaz estava embasbacado com o que via, sem saber se aquilo era realidade ou fantasia, quando se aproximou dele um cachorro que tinha crista de galo e crina de cavalo, além de uma plumagem que lembrava um canário-do-reino, e este lhe disse: "O que é que há, meu bom rapaz? Tome estas pílulas que você ficará bem!" O rapaz, pasmo ante o cachorro falante, pegou as bolinhas e engoliu-as sem pestanejar. Novamente tudo começou a rodopiar, cada vez mais rápido, até que todas as cores formaram apenas uma imensidão branca, límpida, pura, imaculada até. Novamente o silêncio tomou conta da mente do rapaz.
Depois de um tempo, que para o rapaz parecia uma eternidade, ele ouviu um som distorcido. Este som penetrou-lhe o cérebro e o fez acordar. O som era do mais novo funk carioca que bombava num rádio próximo a ele. O rapaz olhou ao seu redor e viu apenas a miséria de um barraco sujo e abafado. Estava ditado sobre um projeto de cama. ao seu lado, uma baranga gorda e suada dormia aos roncos. O rapaz viu-se nu. Ela estava nua. Tudo começou a fazer um terrível sentido. Ele se vestiu rapidamente e caiu fora depois de pegar umas bolinhas que estavam encima de uma caixa de maças que vazia as vezes de um criado-mudo.
O rapaz caiu fora o mais rápido que pôde e encontrou a morte na viela de baixo: os capangas dos traficantes estavam de tocaia desde que o rapaz havia sumido sem sequer sair da boca-de-fumo.
Para o rapaz, naquele momento, tudo tinha escurecido e silenciado definitivamente. E as cores do sonho não tornaram a aparecer para ele.
criado por André Marcon
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